A libertação, sabedoria em
nossos dias.
Para o mundo,
cada vez mais plural e globalizado, em que a grande maioria da população se
sente vítima, a eleição do argentino, Mário Jorge Bergoglio (*1936), no dia 13
de março de 2013 para a Sé de Roma como seu 266º Bispo foi um divisor das
águas. Das mudanças às quais seus gestos simbólicos nos primeiros momentos de
assumir o ministério Petrino assinalavam, a imprensa regalou avidamente a
população em toda parte.
Agora, quatro
anos depois, as edições recentes das revistas católicas estão empenhadas em
perfilar o Papa Francisco, este sábio “do fim do mundo” e sua práxis
paradigmática. O Papa não para de nos surpreender. Assim como Francisco de
Assis, cujo nome ele escolheu para singularizar sua nova missão, o novo Papa
herdou um mundo em que a humanidade e a própria igreja se encontravam em
“ruínas”. O consenso que aparece sobre ele até agora é que ele é “alguém que
mira o céu com os pés no chão, tendo-os por vezes feridos e enlameados”.
Este
redator-chefe documento de CELAM (2007) que “exige que se vá além de uma
pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária”, age
para efetuar a transformação na pastoral que leve a Igreja às periferias da
vida humana, pois ele se aborrece com o clericalismo e denuncia a
“autorreferência de muito eclesiásticos”. Na verdade, seus gestos, signos e a
sua própria linguagem são interpelações para a teologia de hoje!
Papa Francisco
evidenciou em diversas maneiras que é Jesus que deve ocupar o centro da igreja
e do mundo; a sua escolha do nome de Francisco assinalava todo um programa que
visava o amadurecimento da igreja, saída do Vat2 da sua infância, para lutar
contra um século vencido pela mundialização da injustiça social. Percebe-se que
ele vê seu ministério de Bispo de Roma como tarefa de construir pontes para se
aproximar das pessoas e da natureza, mais do que construir muros para proteger
os privilégios de uns poucos ou erguer paredes para excluir os muitos
necessitados!
Sem demora ele se
pronunciou contra a sociedade do consumo, do descarte e da degradação do meio
ambiente em que vivemos; sua proposta é a alternativa de acolher as palavras de
Jesus como fonte da vida. Ao mesmo tempo ele é sensível das situações em que a
fragilidade humana impede a concretização ideal dos princípios evangélicos.
Desde cedo ele adotou o caminho da misericórdia e da integração.
O sínodo sobre a
família (2014-5) e a Exortação Apostólica pós-sinodal “A Alegria do Amor” constituem
um momento pivotante para a teologia, pois nesse, assim como nos documentos
anteriores Francisco introduz um paradigma epistemológico novo: conhecer,
compreender, curar; não conhecer para dominar, mas conhecer para curar/libertar/salvar.
O Papa tem consciência da complexidade que atravessa a nossa realidade; as
novidades que a tecnociênca nos proporcionam podem enriquecer ou empobrecer o
ser humano. Não há como resolver nossos problemas de maneira simplista e nos preconiza
a empregar uma metodologia oriunda da teologia encarnada, missionária,
integradora e em movimento.
É crucial sua
retomada de modelo da Igreja “povo de Deus” para substituir o modelo piramidal.
Para Francisco a Igreja circular, a circularidade trinitária é o paradigma por
excelência, pois se alinha com as exigências do mundo e combina melhor com sua
missão libertadora: de uns em direção a todos e de todos em relação a cada um,
sem esquecer que “o todo é superior à parte”. O modelo proposto aqui não é a
esfera (circulo), mas o poliedro, pois este reflete a confluência de todas as
partes que nele mantêm sua originalidade.
Eis um sábio que
propõe uma alternativa que tenciona restabelecer a sanidade humana e o equilíbrio
do habitat humano ameaçado pelas forças totalizantes e a ditadura do
relativismo.

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