quarta-feira, 7 de junho de 2017

A política como lugar teológico

A política como lugar teológico


Cabe uma reflexão teológica sobre a efervescência social que o Brasil vive hoje. Propomos uma leitura rápida dos Salmos 105 e 106 (um díptico) que são uma releitura da história de Israel, como um modelo dessa. O Deus da Aliança na sua constância e o ser humano na sua inconstância, são as chaves que o salmista usou na interpretação da história diante da desgraça do exílio babilônico. Para a leitura dos textos, recomendamos a “Bíblia do Peregrino” pela riqueza da sua exegese, ou as edições “Pastoral” por serem traduções brasileiras. Efetivamente as duas usam muitas técnicas para auxiliar numa leitura popular e a fácil compreensão dos textos.

O Salmo 105 começa como um hino que visa celebrar a caminhada histórica do povo, a quem Deus se revela caminhando junto. A introdução (1-6) é uma a convocação para dar graças ao Senhor. O tema central é anunciado logo (7-11): o Deus que governa a história é o Deus da promessa. Foi um pequeno grupo humano (12-15), que, guiado pelo profundo instinto de liberdade, não se deixa escravizar por ninguém que começou essa caminhada histórica. Neste impulso de ser livre já está presente o Deus libertador. A pessoa de José (16-22) simboliza a história de todo povo escravo; ele se torna o portador da vida nova. O período da vida no Egito é lembrado, mencionando os líderes da libertação (23-27). As sete pragas no Egito (28-38) são vistas como testemunha do conflito, a luta pela libertação, da qual Israel sai vitorioso. Com Deus no seu lado o povo se torna invencível! No entanto, o deserto é o caminho para a libertação (39-41); o deserto é o lugar onde o povo conseguirá construir uma história e sociedade novas, desde que se mantenha fiel ao projeto de Deus. Esta leitura da história procura suscitar fé e esperança nas pessoas.

O Salmo 106, complementa o anterior, pela lembrança das falhas humanas nessa história. No estilo próprio da linguagem bíblica o autor resume essas em sete ‘pecados’. Já na introdução (1-6) a geração presente se solidariza com as passadas; a primeira das falhas foi (7-12) o desejo de povo, perseguido pelos egípcios, querer voltar para a escravidão (cf. Ex 14). Quando sentiu fome no deserto, foi atendido, mas o povo quis partir para a acumulação, desconfiando na Providência (cf. Ex 16). Em seguida é lembrada a rebeldia de Datã e seu grupo (16-18) contra as lideranças que conduziam o povo na realização do projeto de Deus (cf. Nm 16). A idolatria consiste em adorar ídolos e transformar Deus num ídolo, a fim de o manipular(cf. Ex 32). Acovardar-se ao chegar a terra prometida é outro lapso do povo recordado (24-27). Copiar os modelos político-religiosos dos canaanitas, que exploravam e oprimiam os camponeses foi outro pecado (28-31; cf. Nm 25). Quando faltou água (32-33), o povo reclamou tanto, que até Moisés chegou a duvidar (cf. Ex 17; Nm 20). Já na terra prometida, em vez de seguir o projeto de Javé, o povo se deixou fascinar e contaminar com os projetos dos opressores. O leitor percebe que o exílio está sendo interpretado como castigo por servir aos deuses estrangeiros. Mas os vv. 43-46 exaltam da constância de Deus que não abandona seu povo apesar das suas infidelidades.

Uma reflexão teológica tem que levar em conta de que no Brasil atual um modelo de capitalismo que procurou implementar justiça social está sendo superado pelas forças imperialistas a serviço de deus-mercado. Segundo, a democracia participativa está sendo substituída pelo velho coronelismo. Terceiro, sutilmente o ser humano está sendo reduzido à mão de obra e mero consumidor, controlado pelas forças de mercado! Por fim, manipulação astuciosa dos sentimentos religiosos nas últimas décadas está produzindo uma classe, além da elite tradicional, culpabilizante dos menos favorecidos! No entanto, o Livro de Gênesis 1,27 diz: “E Deus criou o homem à sua imagem”.


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