quarta-feira, 21 de junho de 2017

A experiência do mundo, a experiência de Deus

A experiência do mundo, a experiência de Deus

Gerhard von Rad (1901-1971, o estudioso alemão do AT, opinou que a grandeza de Israel tenha decorrido do fato de não ter mantido a fé e conhecimento apartados. As experiências do mundo sempre foram para ele também experiências divinas, assim as experiências de Deus eram para ele experiências do mundo.

Neste segundo momento da nossa reflexão sobre a sabedoria como o caminho para a libertação/salvação, no momento em que o país vive a mudança de democracia concedida a democracia representativa do povo soberano, nós vamos olhar rapidamente ao conteúdo do livro de Provérbios. É uma coletânea de ditos atribuídos ao Salomão e também aos sábios diversos como Agur e Lemuel. Além de uma introdução extensa o livro tem um poema que descreve “a mulher/esposa ideal” no final. È possível afirmar que este livro representa uma das principais maneiras pelas quais a academia israelita respondeu à crise de identidade no período exílico e pós-exilico. E os desafios do momento eram a sobrevivência e o assentamento dos alicerces do futuro.

São diversas as vozes que se fazem ouvir ao longo dos trinta e um capítulos deste livro: pais, mestres, sábios e reis que exibem seu conhecimento. As palavras dos sábios de outras terras e culturas enriquecem a coletânea ainda mais. Mas, todas essas vozes são apenas ecos e variações da voz que domina e permeia toda a compilação – a voz da Sabedoria.

Percebe-se a personificação da sabedora como mulher no livro. Esta técnica permitiu que os autores sapienciais unificassem os vários tipos de sabedoria. Contudo, é possível falar de uma espécie de moldura feminina a partir das imagens empregadas nos capítulos 8 e 31,10-31. Nos períodos, exílico e pós-exílico, com o fim da monarquia, o lar emergiu como o loco central da identidade e vida da comunidade judaica. Há autores que interpretam o papel central da mulher no capítulo 8 como a metáfora do papel de Deus como Genitor Divino que cria e mantém a morada da comunidade humana – o mundo habitado.

Entrementes, não se esqueceu dos contrapontos, pois as imagens femininas inventadas pelos homens tendem perpetuar os estereótipos da mulher como madona ou prostituta; esta, a fonte do mal, e aquela a fonte do bem. No entanto, comentaristas veem na figura da “Sabedoria”, muito além de uma típica parceira potencial de casamento; a valer, um caráter autônomo que convida todos à plena existência humana. Ela é a ponte entre Deus e os seres humanos, e entre os seres humanos e o mundo criado.

São duas coletâneas de provérbios atribuídos a Salomão (10,1-15.33; 16,1-22,16 e 25,1-29,37). Na primeira, o otimismo permeia ao lado de uma serena confiança no regime justo e leal de Deus no mundo: “Em todo lugar os olhos de Javé estão vigiando os maus e os bons” (15,3). O livro traz também o conselho dos sábios não israelitas. As afinidades com a sabedoria egípcia são particularmente fortes. Além disso, nós temos palavras de outros sábios, como por exemplo, 24,29 que é uma versão negativa da regra de ouro que aprece em Mt 5,38-45; 7,12. “Nunca diga: ‘Vou fazer para ele o mesmo que ele me fez. Vou lhe pagar como ele merece’”.

 “No mundo existem quatro seres pequeninos que são mais sábios do que os sábios: as formigas, povo fraco, mas que recolhe comida no verão; as ratazanas, povo sem força, mas que mora nas rochas; os gafanhotos, que não têm rei, mas avançam todos em ordem; as lagartixas, que se podem pegar com a mão, mas penetram até em palácios de reis” (30, 24-28). Por fim, no capítulo 31 as imagens femininas dos capítulos 1-9 voltam a nos propor uma estratégia de libertação: “Abra a boca em favor do mudo e em defesa dos desfavorecidos. Abra a boca e dê sentenças justas, defendendo o pobre e o indigente” (31,8-9). 



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