Jogadas midiáticas atuais e as profecias nos tempos idos
Vivemos um momento de investida opressora promovido pela mídia
hegemônica a serviço do imperialismo capitalista patrimonial. Vemos
como ela direciona o percurso da nossa história, mas não para o bem
de todos os cidadãos brasileiros. Neste contexto, baseando-nos em Jr
28,1-17, queremos mostrar que esse fenômeno infeliz já existia em
tempos idos, e que a profecia de Jeremias é emblemática neste
sentido.
Profeta Jeremias viveu entre dois períodos políticos muito
distintos em Judá. O primeiro diz a respeito aos anos que precederam
a morte do rei Josias (609 a.C), um período de independência
política, prosperidade econômica e de reforma religiosa. O segundo
período, marcado por rápida decadência político-econômica, em
que Judá esteve dominado pelo Egito e pela Babilônia sucessivamente
(605-586/7 a.C.).
O profeta atua intermediando a comunicação entre divindade e os
humanos, instrumento midiático da palavra, geralmente vinculado aos
movimentos sociais e à cultura; agia como porta-voz dos pobres e
oprimidos, contudo o AT fala dos grupos de profetas, que promoviam
interesses diversos. Para Jeremias, o falso profeta mente, desviando
o povo, impedindo que se converta e volte para o caminho da Aliança
com Javé. O profeta autêntico, pelo contrário, é chamado para
fazer a soberania de Javé ir além do âmbito do Sagrado, tangendo a
vida social e demais áreas do domínio estatal.
A derrocada do império assírio (631 a.C.) deu origem aos confrontos
entre o Egito e a Babilônia, para dominar a região; foi Babilônia
que ganhou no final. Existiam, pelo menos duas facções na corte de
Jerusalém: uma pró-Babilônia e outra pró-Egito. O clero, que
tinha se afastado dos ideais da Aliança mosaica, os altos
funcionários do rei, grandes proprietários, junto com os setores do
comércio internacional, favoreciam a aliança com o Egito. Todos
rejeitaram as críticas do Jeremias, porém alguns entre a nobreza
concordavam com as orientações de Jeremias (cf. Jr 36,14-20).
Jr 28 nos informa que Rei Sedecias de Judá foi convidado pelos reis
de Moab, Edom, Amon, Tiro e Sidõnia para formar uma coalizão
anti-babilônica. Profeta Jeremias recebeu uma ordem de Javé por
meio de uma ação simbólica (canga no pescoço) a anunciar que Judá
deveria submeter-se ao senhorio de Babilônia (cf. Jr 27,3-11), como
a única possibilidade de salvação e a garantia de permanência do
rei em Judá (cf. Jr 27,12-13). Jeremias alerta que os falsos
profetas mentem ao anunciar a insubmissão ao poder opressor (cf. Jr
27,9-10.14-15). Hananias, um profeta de palácio pretende falar em
nome de Javé e desautoriza a palavra de Jeremias (cf. Jr 28.2-4).
Ele declara publicamente que Jeremias é o falso profeta, incapaz de
discernir a vontade de Javé na história. Na verdade a profecia
deste reflete os sonhos, desejos e ideais dos grupos pró-Egito. Para
esses render-se à Babilônia significava perder as mordomias que os
aliados da Coroa usufruíam.
Em sua resposta a Hananias, Jeremias põe à prova a profecia
propondo um critério de discernimento, o da confirmação histórica
(cf. Jr 28, 5-17; também Dt 18,21-22). Porém, Hananias retira o
jugo do pescoço de Jeremias e o quebra. Essa mensagem, assim como a
dos demais profetas do palácio (cf. Jr 14,13-14), constituiu-se como
propaganda midiática que servia aos interesses de corrupção e da
morte, consequência de desconhecimento e distanciamento de Deus.
Suas palavras eram enganadoras e buscavam sintonia com o desejo do
povo, igualmente culpado. Deus fez com que Jeremias desse uma
resposta a Hananias (cf. Jr 28,13-16). Distinguir entre os falsos e
verdadeiros profetas não é tarefa fácil. Contudo, a história
confirmou a profecia de Jeremias: Hananias morreu naquele ano (Jr
28,17), assim como Jeremias tinha profetizado e mais tarde Judá foi
conquistado por Babilônia.
Jeremias não era um propagandista pró-Babilônia, mas sua profecia
serviu para denunciar a indiferença de Judá em relação aos
valores éticos ligados à Aliança. Ele reconheceu que o mais
sensato naquele momento era render-se à Babilônia. Seus oráculos
visavam a conversão de todo o povo para promover a equidade, o
direito e a justiça, o ideal de uma sociedade igualitária.
Na atualidade o capitalismo patrimonial hegemônico apresenta-se como
‘o dado’ que vem de Deus e adota o tom moralista (hipócrita) que
engana um grande número dos cidadãos!

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