quinta-feira, 25 de maio de 2017

Diante de deus-Mercado

Diante de deus-Mercado


O momento tragicômico que Brasil vive na era pós-golpe é mais bem entendido com uma reflexão teológica. São as tensões de passagem do capitalismo hegemônico do modelo desenvolvimentista para o modelo neoliberal do mercado livre que o país experimenta. A idolatria do dinheiro, concentração da riqueza, exclusão social e a crise ambiental, que este sistema iníquo provoca, são fatos bem reconhecidos; são muitos os preocupados com a gravidade da situação, mas poucos aceitam mudanças para uma vida mais solidária e fraternal.

A ideologia capitalista que foi um sistema de ideias norteadoras de uma classe social na segunda metade do século passado hoje passa a ser o núcleo da cultura global em construção e seu ethos num mundo globalizado. A modernidade baniu o mito cristão da esfera pública e a pós-modernidade edifica o novo mito que se baseia na nova cosmovisão a partir do mercado ‘livre’ divinizado, a versão moderna do bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-35).

Ronald Regan, Margaret Thatcher e outros impuseram políticas neoliberais ao mundo usando instituições como FMI, Banco Mundial, “Consenso Washington” e campanhas agressivas na mídia da comunicação para divulgar o credo dessa nova religião. Teóricos como Ludwig van Mises (1881-1973) anunciaram a ruptura do mito de progresso e desenvolvimento. As pessoas não têm mais direito “natural”, na nova dispensação, de ter acesso às condições da vida digna, ao passo que todo programa social em nome de “justiça social/dívida social”, transferindo dinheiro dos ricos para os pobres, é “roubo”. Foi feita uma releitura do mito do pecado original, quer dizer, pretender conhecer a complexidade do mercado e regular seu funcionamento com ações governamentais é “pecado”, pois gera “crise” no mercado!

Assim a religião da pós-modernidade revela-se culpabilizante sem oferecer nenhuma forma de perdão ou redenção. Anticapitalismo, segundo von Mises, é a procura de bode expiatório dos fracassados por não forem capazes de assumir, a sua própria culpa, uma vez que igualdade perante a lei dá a você o poder de desafiar cada bilionário! Eis o porquê da agressividade dos “anti-esquerda”, visto que os governos intervencionistas tiram deles o que é por direito deles para dá-lo aos pobres, os que não foram capazes de ganhar seu próprio dinheiro.

Diante disso o cristão identifica três urgências: defender o direito de todos os seres humanos a uma vida digna; a desculpabilização dos pobres da sua situação social; a retomada da noção da responsabilidade de toda a sociedade perante a crise social e ambiental. Já que a idolatria neoliberal mostrou sua capacidade de fascinar seus seguidores e lhes oferecer um sentido de vida, é preciso oferecer outra “narrativa mítica” em contraposição.

Dito isso, a tarefa da teologia seria de discernir entre Deus e os ídolos que exigem sacrifício e culpabilização dos pobres. A novidade da mensagem cristã é introduzir na história o amor fraternal que inclui a todos; sua afirmação central é que as vítimas são inocentes, e nenhuma desculpa ou pretexto justifica a vitimação deles. A afirmação “as vítimas são inocentes” é importante, pois são os réus que têm sua inocência questionada, não as vítimas. De fato os primeiros testemunhos da ressurreição de Jesus declaram que, para Deus, Jesus era justo, inocente, ao contrário do que pensaram o Templo e o Império!

A um mundo que anuncia que não há alternativa ao sistema do mercado livre, reafirmar o caráter profético do cristianismo é ter a capacidade de oferecer uma outra “narrativa mítica” capaz de desvelar e denunciar cosmovisões, símbolos e mitos opressivos do Império atual!



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