quarta-feira, 3 de maio de 2017

A experiência da torre de Babel

A experiência da torre de Babel (Gn 11,1-9)

O livro de Gênesis 11,1-9 nos conta de uma experiência humana vivida no determinado momento da história. A narrativa pode ser resumida assim: a terra toda falava a mesma língua; os que migravam do Oriente encontraram um local agradável e aí se estabeleceram; com seu domínio de novas tecnologias (a arte de fabricar tijolos) decidiram construir uma cidade com uma torre que chegue até o céu, para ficarem famosos e não se dispersarem pela superfície da terra. Mas, Javé, ao perceber que o projeto humano contrariava o seu, confundiu sua língua e os espalhou pela superfície da terra.

O perícope é uma narrativa etiológica, quer dizer, ela procura explicar a origem de alguma situação ou estrutura. Que a terra toda falava a mesma língua está no começo da história. Sociólogos e antropólogos reconhecem a linguagem como uma das marcas primárias de uma cultura específica, da tradição cultural, ou do grupo étnico. Essa história relata um projeto humano de não permitir diversidade, de ficarem todos juntos e uniformizados e se tornarem famosos.

De fato, Gn 10,8-10 menciona Nimrod, um caçador de alta fama, “o primeiro poderoso da terra”, que dominava a cidade de Babel a prolepse do que viria no capítulo 11. Posto que no fim desta história o que aconteceu foi o contrário do que o homem almejava, como entender e interpretar essa? A referência histórica pode ter sido a Babilônia, o cume do projeto imperial de Nabucodonosor (604-562 a.C) que procurava anular todas as diferenças legítimas: culturais, linguísticas, religiosas etc. no mundo inteiro! Javé “confundiu a linguagem” e depois “espalhou o povo pela face da terra”. A confusão que vem pela diversidade, por si só, seria uma punição divina pelo projeto de comunicação ‘uniformizada’ como de exploração e dominação, e não de diálogo e da igualdade. Será que não existe uma determinação divina para o ser humano crescer em diversidade?

Passando rapidamente para o NT, Atos 2, 1-13, a narrativa de Pentecostes, lida de maneira sincrônica contribui para nossa compreensão deste texto. Diacronia e sincronia são essenciais na interpretação dos textos. Neste caso a tradição cristã de usar o esquema de ‘promessa-cumprimento’ na compreensão dos textos bíblicos justifica a leitura sincrônica. Em tal leitura, a torre de Babel pode ser vista como um projeto de comunicação desagregadora enquanto o Pentecostes com sua glossolalia como a recuperação da comunicação positiva. No projeto de Babel (o projeto de homem) procurou-se anular diversidade, enquanto no (projeto de Deus) Pentecostes, a capacidade comunicar-se mesmo nas diferenças é restituído.

A chegada do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, na comunidade refere às experiências carismáticas dos cristãos. O impacto deste é para os de fora, como instrumento de evangelização. De forma cifrada o evento torna-se também uma severa crítica ao império romano, ou seja, uma fina ironia de como Deus atua contra os poderosos sem que eles percebam!

O fenômeno da glossolalia – o falar em outras línguas tem em contraponto o fenômeno da audição coletiva. São duas hipóteses aceitas na sua interpretação: uma, a manifestação extática e a outra refere a capacidade dos discípulos a comunicar com os judeus e prosélitos reunidos em Jerusalém para a festa. A lista das nacionalidades em At 2,8-11 reflete a lista utilizada na propaganda do império romano para mostrar as nações dominadas por ele. Só é que tem uma subversão da lista: o Evangelho de Jesus e a nova aliança alcançaram a todas as nações no derramar do Espírito no dia de Pentecostes!


No Brasil, hoje forçosamente submetido ao projeto de capitalismo patrimonial hegemônico, será a que a experiência da torre de Babel não está se repetindo?

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