A experiência da torre de Babel (Gn 11,1-9)
O livro de Gênesis 11,1-9 nos conta de uma experiência
humana vivida no determinado momento da história. A narrativa pode ser resumida
assim: a terra toda falava a mesma língua; os que migravam do Oriente encontraram
um local agradável e aí se estabeleceram; com seu domínio de novas tecnologias
(a arte de fabricar tijolos) decidiram construir uma cidade com uma torre que
chegue até o céu, para ficarem famosos e não se dispersarem pela superfície da
terra. Mas, Javé, ao perceber que o projeto humano contrariava o seu, confundiu
sua língua e os espalhou pela superfície da terra.
O perícope é uma narrativa etiológica, quer dizer, ela
procura explicar a origem de alguma situação ou estrutura. Que a terra toda falava
a mesma língua está no começo da história. Sociólogos e antropólogos reconhecem
a linguagem como uma das marcas primárias de uma cultura específica, da
tradição cultural, ou do grupo étnico. Essa história relata um projeto humano
de não permitir diversidade, de ficarem todos juntos e uniformizados e se
tornarem famosos.
De fato, Gn 10,8-10 menciona Nimrod, um caçador de alta
fama, “o primeiro poderoso da terra”, que dominava a cidade de Babel a prolepse
do que viria no capítulo 11. Posto que no fim desta história o que aconteceu
foi o contrário do que o homem almejava, como entender e interpretar essa? A
referência histórica pode ter sido a Babilônia, o cume do projeto imperial de
Nabucodonosor (604-562 a.C) que procurava anular todas as diferenças legítimas:
culturais, linguísticas, religiosas etc. no mundo inteiro! Javé “confundiu a
linguagem” e depois “espalhou o povo pela face da terra”. A confusão que vem
pela diversidade, por si só, seria uma punição divina pelo projeto de
comunicação ‘uniformizada’ como de exploração e dominação, e não de diálogo e da
igualdade. Será que não existe uma determinação divina para o ser humano
crescer em diversidade?
Passando rapidamente para o NT, Atos 2, 1-13, a narrativa de
Pentecostes, lida de maneira sincrônica contribui para nossa compreensão deste
texto. Diacronia e sincronia são essenciais na interpretação dos textos. Neste
caso a tradição cristã de usar o esquema de ‘promessa-cumprimento’ na
compreensão dos textos bíblicos justifica a leitura sincrônica. Em tal leitura,
a torre de Babel pode ser vista como um projeto de comunicação desagregadora
enquanto o Pentecostes com sua glossolalia como a recuperação da comunicação
positiva. No projeto de Babel (o projeto de homem) procurou-se anular
diversidade, enquanto no (projeto de Deus) Pentecostes, a capacidade
comunicar-se mesmo nas diferenças é restituído.
A chegada do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, na
comunidade refere às experiências carismáticas dos cristãos. O impacto deste é
para os de fora, como instrumento de evangelização. De forma cifrada o evento
torna-se também uma severa crítica ao império romano, ou seja, uma fina ironia
de como Deus atua contra os poderosos sem que eles percebam!
O fenômeno da glossolalia – o falar em outras línguas tem em
contraponto o fenômeno da audição coletiva. São duas hipóteses aceitas na sua interpretação:
uma, a manifestação extática e a outra refere a capacidade dos discípulos a comunicar
com os judeus e prosélitos reunidos em Jerusalém para a festa. A lista das
nacionalidades em At 2,8-11 reflete a lista utilizada na propaganda do império
romano para mostrar as nações dominadas por ele. Só é que tem uma subversão da
lista: o Evangelho de Jesus e a nova aliança alcançaram a todas as nações no derramar
do Espírito no dia de Pentecostes!
No Brasil, hoje forçosamente submetido ao projeto de
capitalismo patrimonial hegemônico, será a que a experiência da torre de Babel
não está se repetindo?

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