A traição nas narrativas da Paixão de Jesus
Na tradição
católica a proclamação litúrgica da Paixão na sexta-feira santa é feita do
Evangelho de João (Jo 18,1-19,42), mas, no domingo de Ramos é o texto de um dos
sinóticos; este ano foi o texto de Mateus (26,14-27,66). É deste que procuro ressaltar
um aspecto cíclico da história que aponta para a eficiência do império a exterminar
seus adversários com colaboração dos traidores do programa a ser destruído.
Por isso, é conveniente
começarmos a nossa análise já nos primeiros versículos do capitulo 26 de Mateus
(vv.3-13) para compreender melhor os eventos na sua totalidade a fim de que a
celebração de paixão não seja algo alienado, mas algo que ilumina a realidade
histórica, o contexto da celebração.
A decisão de
matar Jesus por “traição, por um ardil, por uma cilada”, foi tomada pelas
elites palestinenses, os agentes locais do império romano (Mt 1,3-5). Em
seguida o texto fala da unção em Betânia (Mt 1, 6-13). Há um alvoroço em torno do
perfume caro que uma mulher usou para ungir Jesus. É um indício da divisão,
brigas de poder e a ganância reinante no meio dos discípulos desunidos. Foi o
momento em que Judas, um dos doze apóstolos, decidiu buscar sua fortuna em
outro lugar, longe do grupo; ele fez um contrato com os poderosos para entregar
seu mestre por traição, por um preço!
Judas cumpre sua
parte efetivamente na ocasião da Páscoa e o rabino Jesus que tirava o sono da ‘casa
grande’ foi capturado por traição. Logo ele foi levado direto ao Sumo Sacerdote
Caifás, que já estava reunido com os escribas e os anciãos. Estando seus esforços
para obter “falso testemunho contra Jesus, a fim de mata-lo” (delações
premiadas) em vão, O Sumo Sacerdote fez uma intervenção especial que gerou o
consenso entre os presentes, que Jesus “É réu de morte”, precisamente o aval que
a cúpula precisava!
“Chegada a
manhã, todos os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo convocaram um
conselho, contra Jesus, a fim de leva-lo à morte” (Mt 27,1). Agora a
decisão das elites feita anteriormente recebeu a aparência de “legal”. Muito
parecido com as sessões da Câmara Municipal de Campo Grande que destituiu um
prefeito eleito e as Sessões de Congresso Nacional que anulou a decisão
democrática do povo brasileiro ao substituir a Presidente legítima da
República!
O próximo passo para
os adversários de Jesus é de obter sua condenação imperial; levaram-no ao
governador romano. Pilatos, um dos mais eficientes e cruéis dos administradores
romanos de Palestina já sabia de Jesus e que as elites agiam contra ele motivados
por inveja. No entanto, ele implementou os rituais da justiça romana, porém não
se provou crime algum. Até mesmo sua própria mulher intercedeu em prol do
Galileu. Sua estratégia de usar o costumeiro indulto pascal para salvar a vida
de Jesus só aumentou a fúria das elites e a histeria da massa de manobra a seu
dispor. Para evitar o perigo de um massacre o governador perspicaz decidiu
ceder à pressão e condenou Jesus a crucificação.
Jesus foi
devidamente executado; ele morreu bem mais rápido que se esperava. Contudo, o
Nazareno tinha amigos entre as elites que, embora não conseguissem prevenir a
tragédia da condenação criminal, apareceram no cenário para assegurar que ele
recebesse um funeral digno. Entrementes, seus adversários, fizeram com que seu
sepulcro fosse selado e que tivesse guarda montada para impedir “o roubo de
cadáver”.
Veremos, foi em
vão, pois a traição não tem a última palavra!

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