sábado, 14 de janeiro de 2017

Os preparativos para anunciar o Reino/Reinado de Deus

Os preparativos para anunciar o Reino de Deus

As edições mais recentes da Bíblia apresentam o Evangelho de Mateus dividindo seus capítulos de uma maneira que facilita a leitura. Os primeiros dois capítulos tratam do nascimento e da infância de Jesus de Nazaré. Do capítulo três até o vinte e cinco trata do Reino de Deus. Os últimos três capítulos tratam da Paixão, Morte e a Ressurreição de Jesus.

A segunda parte, isto é, capítulos 3 – 25 são divididos em cinco ‘livros’. Nas traduções mais recentes como a Bíblia de Jerusalém, Edição Pastoral, Nova Bíblia Pastoral fazem assim para o primeiro livro do NT assemelhar ao Pentateuco, os primeiros livros do AT. Jesus seria o novo Moisés, o Novo libertador do povo. O ano 2017, o ano de letra A na liturgia católica, é o ano do Evangelho de Mateus. Para auxiliar os leitores captarem melhor a mensagem evangélica libertadora, faremos algumas observações sobre o Mateus nas próximas semanas.

Nós já apresentamos os primeiros dois capítulos, considerados ‘o Evangelho da Infância’, e hoje queremos nos adentrar na segunda parte – a vida pública de Jesus. No esquema de apresentação de texto, referido acima, os capítulos três a sete promulgam o Reino de Deus. A promulgação tem uma parte narrativa e outra discursiva. De fato todos os cinco ‘livros’ têm o mesmo esquema: uma parte narrativa e um discurso. É da parte narrativa do primeiro ‘livro’ que nós vamos falar aqui.

No capítulo três aparece João Batista como quem prepara o povo para acolher uma radical novidade na história humana. É o próprio Deus que vai efetuar tal mudança, pois as estruturas políticas e religiosas existentes já tinham se mostrado ineficazes de proporcionar uma vida digna para todos. E todos viviam expectativas, cada um de acordo com sua ideologia. João chama a população para o deserto, o lugar onde Deus constituiu seu povo, simbolizando a radicalidade do novo começo. Ele batiza no Rio Jordão, no local por onde Josué tinha conduzido o povo para tomar a cidade de Jericó, no tempo do êxodo do Egito, para entrar na terra prometida.

João é apresentado como a voz que clama no deserto (cf. Is 40,3s); essa interpretação se encaixa muito bem na teologia mateana, mais especificamente sua Cristologia como veremos posteriormente. O Batista vive uma vida austera (Mt 3,4); na sua pregação  usa uma linguagem áspera. Quando ele avista as elites opressoras (fariseus e saduceus) entre os que vinham a ser batizados ele os condena em termos inequívocos (cf. Mt 3,7-11).

A segunda parte deste capítulo fala do batismo de Jesus (Mt 3,13-17). “Nesse tempo Jesus veio da Galileia ao Jordão, a fim de ser batizado”. Há um diálogo entre os dois, que já nos faz sentir a diferença entre o que Jesus representa e o que João propõe. O diálogo termina com as palavras: “nos convém cumprir toda justiça” que convencem João. Ele concordou e batizou Jesus. Aqui a palavra ‘justiça’ (dikaiosyne – em grego) na raiz refere à tradição hebraica a ações que permanecem fiéis a compromissos (da Aliança) e relacionamentos e não, como no pensamento grego, um ideal pelo qual as ações podem ser mensuradas. Assim já temos o conteúdo programático da práxis de Jesus.

No que segue temos uma teofania (manifestação de Deus). O céu se abre, o Espírito de Deus desce sobre Jesus e há uma voz que o declara filho/servo (cf. Is 42,1). Estes são metáforas para evidenciar a concorrência e coincidência do plano de Deus e os interesses humanos. Dito de maneira sucinta: o Reino/Reinado/Império de Deus é dom divino e ação humana.



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