Os preparativos para anunciar o Reino de Deus
As edições mais recentes da Bíblia apresentam o Evangelho de
Mateus dividindo seus capítulos de uma maneira que facilita a leitura. Os
primeiros dois capítulos tratam do nascimento e da infância de Jesus de Nazaré.
Do capítulo três até o vinte e cinco trata do Reino de Deus. Os últimos três
capítulos tratam da Paixão, Morte e a Ressurreição de Jesus.
A segunda parte, isto é, capítulos 3 – 25 são divididos em
cinco ‘livros’. Nas traduções mais recentes como a Bíblia de Jerusalém, Edição
Pastoral, Nova Bíblia Pastoral fazem assim para o primeiro livro do NT assemelhar
ao Pentateuco, os primeiros livros do AT. Jesus seria o novo Moisés, o Novo
libertador do povo. O ano 2017, o ano de letra A na liturgia católica, é o ano
do Evangelho de Mateus. Para auxiliar os leitores captarem melhor a mensagem
evangélica libertadora, faremos algumas observações sobre o Mateus nas próximas
semanas.
Nós já apresentamos os primeiros dois capítulos, considerados
‘o Evangelho da Infância’, e hoje queremos nos adentrar na segunda parte – a
vida pública de Jesus. No esquema de apresentação de texto, referido acima, os
capítulos três a sete promulgam o Reino de Deus. A promulgação tem uma parte
narrativa e outra discursiva. De fato todos os cinco ‘livros’ têm o mesmo
esquema: uma parte narrativa e um discurso. É da parte narrativa do primeiro
‘livro’ que nós vamos falar aqui.
No capítulo três aparece João Batista como quem prepara o
povo para acolher uma radical novidade na história humana. É o próprio Deus que
vai efetuar tal mudança, pois as estruturas políticas e religiosas existentes
já tinham se mostrado ineficazes de proporcionar uma vida digna para todos. E todos
viviam expectativas, cada um de acordo com sua ideologia. João chama a
população para o deserto, o lugar onde Deus constituiu seu povo, simbolizando a
radicalidade do novo começo. Ele batiza no Rio Jordão, no local por onde Josué tinha
conduzido o povo para tomar a cidade de Jericó, no tempo do êxodo do Egito,
para entrar na terra prometida.
João é apresentado como a voz que clama no deserto (cf. Is
40,3s); essa interpretação se encaixa muito bem na teologia mateana, mais
especificamente sua Cristologia como veremos posteriormente. O Batista vive uma
vida austera (Mt 3,4); na sua pregação
usa uma linguagem áspera. Quando ele avista as elites opressoras
(fariseus e saduceus) entre os que vinham a ser batizados ele os condena em
termos inequívocos (cf. Mt 3,7-11).
A segunda parte deste capítulo fala do batismo de Jesus (Mt
3,13-17). “Nesse tempo Jesus veio da Galileia ao Jordão, a fim de ser batizado”.
Há um diálogo entre os dois, que já nos faz sentir a diferença entre o que
Jesus representa e o que João propõe. O diálogo termina com as palavras: “nos
convém cumprir toda justiça” que convencem João. Ele concordou e batizou Jesus.
Aqui a palavra ‘justiça’ (dikaiosyne – em grego) na raiz refere à tradição
hebraica a ações que permanecem fiéis a compromissos (da Aliança) e relacionamentos
e não, como no pensamento grego, um ideal pelo qual as ações podem ser
mensuradas. Assim já temos o conteúdo programático da práxis de Jesus.
No que segue temos uma teofania (manifestação de Deus). O
céu se abre, o Espírito de Deus desce sobre Jesus e há uma voz que o declara
filho/servo (cf. Is 42,1). Estes são metáforas para evidenciar a concorrência e
coincidência do plano de Deus e os interesses humanos. Dito de maneira sucinta:
o Reino/Reinado/Império de Deus é dom divino e ação humana.

Nenhum comentário:
Postar um comentário