O Reinado de Deus já chegou
Uma leitura rápida do capítulo quatro do Evangelho de Mateus
já mostra que o Reino/Reinado/Império dos céus/de Deus já está presente de
pleno direito. A maioria das edições recentes da Bíblia divide este capítulo em
quatro partes, a saber: a tentação no deserto (Mt 4,1-11); retorno a Galileia
(4,12-17); o chamado dos primeiros quatro discípulos (4,18-22); e um primeiro
resumo das atividades de Jesus (4,23-25).
É importante ter em mente a natureza metafórica da linguagem
bíblica. Então, o que está em 4,1-11 é uma interpretação teológica das
tentações sempre presentes na vida de Jesus. Referem-se às tentativas da
subversão que suas obras sofreram ao longo de todo seu ministério. Percebe-se
que todas as três tentações têm a ver com as necessidades humanas mais básicas,
isto é, a alimentação, a autoridade e o poder. A inusitada proposta de Jesus
visa uma organização social com critérios e metas contrários àqueles que valem
comumente neste mundo.
Um exemplo é: todos os quatro evangelhos têm narrativas de
multiplicação dos pães. Marcos, Mateus e João falam de um momento de Jesus isolar-se
após o “milagre” (cf. Mc 6,45-46; Mt 14,22-23; Jo 6,14-15). João faz questão de
explicitar o motivo: “aqueles homens” reconheceram em Jesus o profeta que deve
vir ao mundo. O Nazareno, porém, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei,
refugiou-se de novo, sozinho na montanha, frustrando uma tentativa de
corrompê-lo.
Se Jesus pertencesse à elite religiosa, suas curas, suas
interpretações da Lei e seus ensinamentos não teriam sido contestados pelas
autoridades religiosas, como aconteceu (cf. Mc 2,18-22.23-27; 3,22-30). Este é o
significado da segunda tentação que tem o diabo querendo que Jesus pule do
pináculo do templo (Mt 4,5-7). A terceira tentação de adquirir poder político a
qualquer custo (Mt 8,7-11) aponta para a procura de conseguir resultados
desejados a qualquer custo. Não são poucos os cristãos aborrecidos com o
estratagema que o neoliberalismo pós-colonial emprega para submeter o Brasil ao
seu projeto pouco humano! É usando a Sagrada Escritura que Jesus supera as
tentações. O caminho dos seguidores de Jesus não pode ser diferente!
Agora, Jesus vem para Galileia, depois que João foi preso,
pregando o arrependimento, pois o Reinado de Deus está por vir (Mt 4,12-17). Citando
Isaías 8,23-9,1 o autor reforça sua Cristologia, quer dizer, em Jesus de Nazaré
cumprem-se as promessas veterotestamentárias. Ele, de fato, é a ‘luz’ que
brilha na escuridão que envolve a Galileia, oprimida pelos imperialistas.
O chamado para entrar nesta nova dinâmica social é algo que
provoca e exige uma resposta total. Em Mt 4, 18-22, temos a história do chamado
de quatro homens: Pedro e seu irmão André e os filhos de Zebedeu – Tiago e
João. Os quatro dão um mesmo tipo de resposta: “deixando imediatamente... o
seguiram”. A iniciativa de chamar é de Jesus e a resposta dos chamados é total.
O Reino é dom de Deus e ação humana.
Mt 4,23-25 resume as atividades de Jesus em Galileia. O
lugar que o Nazareno frequenta mais é a sinagoga; ali ele ensina anunciando o
Reino de Deus, cura os doentes, expulsa os demônios, em fim restaura as pessoas
a capacidade perdida de desfrutar a vida plena. A reação popular à práxis de Jesus
é muito positiva, pois ele é muito procurado pelos benefícios que é capaz de
proporcionar a classe sofrida do país (v.23).
Tendo examinado a parte narrativa da promulgação do Reino
dos Céus, na próxima, veremos a parte discursiva do primeiro “livrinho” no Evangelho de Mateus.

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