Deus protege seu
“filho”, seu projeto
A segunda parte do segundo capítulo do Evangelho de Mateus (Mt
2, 13-23) nos conta: 1) da brutalidade imperialista (a massacre dos meninos) ao
perceber que seus projetos serão contrariados; 2) da condição dos refugiados e
migrantes da família de Jesus.
Os magos, terminado sua visita e tendo prestado homenagem ao
menino de Belém, foram embora para suas terras sem voltar para Herodes com as
informações que ele havia pedido (cf. Mt 2, 7-12). Depois disso o Anjo do
Senhor comunicou uma mensagem urgente a José num sonho. Ele foi avisado do
perigo mortal que Jesus, o recém-nascido, corria, pois o rei ia procurar
matá-lo. A saída da situação era fugir para o Egito com o menino e a sua mãe.
José, ao levantar tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito ‘durante a
noite’.
Mais uma vez a intenção teológica do autor transparece, pois
ele cita Os 11,1 que diz: “Do Egito chamei o meu filho” como chave
interpretativa do episódio. A identidade do povo de Deus, ‘filho’ aplicada
aqui, de maneira proeminente a pessoa de Jesus de Nazaré, é mais um passo do
desenvolvimento cristológico novotestamentário.
Herodes, ao perceber que os magos tinham seus próprios
planos e que estes não se encaixavam em seus desígnios imperialistas, enfureceu-se
e mandou matar os meninos de dois anos para baixo na região de Belém. Outra vez
o autor cita um texto veterotestamentário para iluminar a compreensão da
situação. A citação é de Jr 31,15. O lamento de Raquel é aplicada a essa
situação em que imperialismo não hesita massacrar seres humanos para manter seu
sistema de privilégios e lucros ilesos!
Passaram-se os anos, assim como todos os poderosos deste
mundo perecem, Herodes também morreu. Apareceu o Anjo do Senhor em sonho outra
vez a José orientando-o para voltar a terra de Israel porque os que buscavam
tirar a vida do menino já tinham morrido. A peregrinação dos refugiados começa
outra vez, esta vez de volta. Todavia, quando ficaram sabendo que Arquelau,
filho de Herodes tinha-lhe substituído no trono, não quiseram voltar para
Judeia. De novo, José recebe orientação divina e a família se estabelece em
Nazaré, Galileia. Essa escolha que os país de Jesus fizeram é interpretada à
luz de Jz 13,5.7. É notável que não haja unanimidade na interpretação dessa
citação; ela continua aberta a diversas significações, todas com validade
considerável.
Para concluir
as reflexões que fizemos sobre “o Evangelho da infância”, podemos dizer o
seguinte. A comunidade/a tradição mateana responde a pergunta: quem é Jesus?
Ele é filho de Davi, que é filho de Abraão, Filho de Deus, Emanuel (Deus
conosco) e Jesus, quer dizer, o salvador do seu povo dos seus pecados. Desde
seu nascimento ele está inserido na situação humana, com toda sua ambiguidade e
é dependente das decisões humanas (seus pais Maria e José como exemplo), decisões
essas, tomadas, auxiliadas pela iluminação divina.
São os
magos, percebendo sinais de mudança radical na natureza (estrela-guia) que saem
em sua busca e o encontram e reconhecem a divindade presente no menino
vulnerável de Belém. A libertação origina na periferia, não na metrópole, nem
na casa real. Os que sabem disso das Escrituras, isto é “todos os sumos
sacerdotes e doutores da Lei” seguem as políticas imperialistas. Herodes, o
fantoche imperialista, age com crueldade desde o primeiro momento que ficou sabendo
que nasceu um ‘novo rei’. Ele procura eliminar qualquer possibilidade de uma
alternativa para o imperialismo. Por isso promove chacinas e matanças em massa
prontamente. Mesmo assim o império não tem a palavra final. Os propósitos de
Deus estão protegidos.

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