A folia dos reis
A folia dos reis é uma das festas folclóricas natalinas. O
núcleo que deu origem a multiplicidade das expressões populares de alegria
natalina inesgotável, inclusive a ‘folia’, encontra-se em Mt 2,1-12.
No tempo do rei Herodes Jesus nasceu em Belém. Vieram alguns
magos do Oriente a Jerusalém perguntado pelo rei dos judeus recém-nascido, pois
tinham visto sua estrela surgir, e vieram homenageá-lo. De verdade, eles agiram
como faria quaisquer outras pessoas em circunstâncias parecidas: procurar o rei
recém-nascido no palácio real.
Contudo, essa foi notícia péssima para Herodes. Ele tinha
tanto ciúme de seu poder e status real que matou seus próprios filhos para
proteger sua posição. “Ouvindo isso (a notícia do nascimento do novo rei dos
judeus), Herodes ficou alarmado e com ele toda Jerusalém” (Mt 2,3). É a
descrição sucinta mateana da reação brutal deste fantoche do império à notícia
de que a semente de uma alternativa possível a imperialismo tinha sido plantado!
Uma vez que ficou claro que a busca do seu rival na metrópole
deu em nada, Herodes começou frenéticas consultas para descobrir o provável
local do seu nascimento. Seus consultores, “todos os chefes dos sacerdotes e os
doutores da Lei”, citando Profeta Miqueias (Mq 5,1-3) apontaram para Belém (na
periferia) como o local: “... porque de você (Belém) sairá um Chefe, que vai
apascentar Israel, meu povo”. O uso deste texto é mais uma instância que
evidencia a intenção teológica mateana de explicar quem Jesus é. Ele é da linhagem
ilustre do povo de Deus, o ‘filho de Davi’ (cf. Mt 1,1-17).
Agora Herodes averigua ‘secretamente’ dos magos os detalhes referentes
à ‘este recém-nascido’ novo rei, como o tempo em que sua estrela teria
aparecido. Em seguida ele lhes incumbiu à tarefa de informá-lo dos detalhes
necessários, já que ele desejava ir “adorar” o novo rei.
Os magos partiram. Ao se afastaram do ambiente imperial de
Jerusalém, a estrela que tinham visto no céu reapareceu-lhes. “Eles, revendo a
estrela, alegraram-se imensamente” (Mt 2,10). A mesma os guiou ao local onde se
encontrava o menino. Eles entraram na casa onde menino Jesus e a sua mãe Maria
estavam, ofereceram lhe presentes, que tinham trazido. Foram avisados em sonho a
não voltarem a Herodes e, por essa razão, regressaram a sua região por outro
caminho.
É inegável o contexto litúrgico-catequético deste perícope. Ademais
a formulação literária do texto evidencia, mais uma vez, a intenção, claramente
cristológica, isto é, Jesus de Nazaré é filho de Davi, Filho de Deus,
Deus-conosco. Ele não se encontra na metrópole, mas na periferia.
Belém é uma pequena aldeia, no entanto tem uma história
régia. Davi foi ungido rei aqui por Samuel para substituir o rei rejeitado,
Saul (1Sm 16,1-13). É aqui que nasce Jesus no tempo de Herodes. Todavia, nem ele,
nem “todos os sumos sacerdotes e doutores da Lei” ‘reconhecem’ Jesus como a
intervenção divina decisiva; são os magos, guiados por uma estrela, um sinal
que vem de natureza, que viajam a Jerusalém a serem instruídos na Sagrada
Escritura, continuam a buscar e ‘reconhecem’ a ação definitiva de Deus no recém-nascido
de Belém.
A eleição de Davi e a promessa do seu reino que durará para
sempre, representam a fidelidade de Deus da aliança para com o povo. É a promulgação
da justiça de Deus defendendo os pobres e necessitados e tendo compaixão (assim
Sl 72). Jesus como descendente de Davi é eleito por Deus para instaurar tal
governo neste mundo. Eis o motivo de ‘folia dos reis’!

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