José assume a
paternidade legal de Jesus.
Depois de comentar
sobre um aspecto incomum, isto é, a presença de quatro mulheres, além da Maria,
na genealogia de Jesus de Nazaré, nós vamos analisar o relato que o Evangelho
de Mateus tem na segunda parte do primeiro capítulo. Existe um consenso hoje
que Mateus acrescentou o “Evangelho de infância”, isto é, capítulos 1 e 2, para
fins apologéticos. Este acréscimo ao Evangelho é mais bem compreendido à luz do
desenvolvimento da Cristologia, como vimos já. Quando os redatores finalizaram
o texto de Mateus, já estavam presentes tendências gnósticos (docetismo) que
ensinavam que o corpo de Cristo era apenas aparente, e que Jesus não nasceu de
Maria. Diante disso a igreja precisava afirmar a realidade histórica de encarnação
do Filho de Deus.
O relato de como
aconteceu o nascimento de Jesus (Mt 1, 18-23) nos diz que Maria, a mãe de Jesus
prometida em casamento a José, encontrou-se grávida antes que os dois começassem
a cohabitar. O texto faz questão de declarar que a gravidez era por obra do
Espírito Santo. José, seu esposo, era um homem “justo” e não quis expor sua
noiva a destino comum nestes casos: morte por apedrejamento, se ele a denunciasse.
Enquanto ele se firmava na sua decisão de divorciá-la secretamente, acontece
uma intervenção divina.
Um anjo do Senhor lhe aparece em sonho com um comunicado
importante: ele, filho de Davi, deve aceitar Maria como sua legítima esposa sem
receio, pois o que nela foi gerado é por obra do Espírito Santo. Ademais, o
filho que vai nascer de Maria deve receber o nome Jesus. Na tradição judaica o
nome simboliza missão da pessoa. O nome Jesus é um variante de Josué
(Yehoshua=Deus salva), o herói antigo que completou o Êxodo de Egito sob a
liderança de Moisés, ao levar o povo entrar, finalmente, em Canaã, a terra
prometida. A missão de Jesus é: “... salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21).
Aqui é inserido o texto de Isaías 7,14 que interpreta o
acontecido na vida de José e Maria à luz do AT, quer dizer, os dois estavam
cumprindo a promessa antiga que Deus tinha feito pelo profeta. O texto original
fala de um sinal, o nascimento de uma criança, que Deus dá ao rei Acaz de Judá,
ameaçado de destruição pelos seus vizinhos Israel e Síria por ele recusar participar
no seu esquema imperialista. A criança assim nascida receberia o nome Emanuel, que
significa Deus conosco – mais um título de Jesus de Nazaré. Isaías assegura
Acaz que os planos dos seus adversários fracassarão devido a fidelidade de
Deus.
Desde já o esquema
‘promessa-cumprimento’ que marca fortemente o NT está em evidência. É possível
identificar pelo menos 10 ocorrências deste, só em Mateus. Jose, ao acordar, acolheu Maria sua esposa
em sua casa, como o anjo tinha mandado. Ele não teve relações sexuais com ela até
o dia em que ela deu a luz a seu filho. Uma vez que nasceu o filho José o
chamou com o nome de Jesus, assim como ele tinha sido instruído no sonho pelo
anjo do Senhor. Desta maneira José assume a paternidade legal de Jesus.
‘Sonho’ e ‘o anjo do Senhor’ – são linguagens no AT que
referem à intervenção divina, quando a compreensão da realidade vai além da
capacidade humana. José recebe uma revelação divina e com isso ele adquire uma
nova perspectiva sobre a situação da sua vida.
A reivindicação de que Jesus manifesta a presença de Deus é
polêmica, visto que a presença de Deus em Jesus desafia a teologia imperial
romana, que vê nos imperadores da dinastia Flávia os mediadores da presença dos
deuses. Por fim, José, ao obedecer ao anjo e acolher Maria como sua esposa
legítima realiza uma ação contra-cultural!

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