A cegueira – um paradoxo em nossos dias!
Em face de
impossibilidade de obter a colaboração do que era cego de nascença para
incriminar Jesus de Nazaré (cf. Jô 9,13-17) o supremo decidiu abrir outro leque
de investigação para criminalizar a práxis de Jesus (Jo 9,18-23), pois era uma
urgência para as elites.
Realizaram uma interpelação
coercitiva dos pais do homem que era cego de nascença. Os pais garantiram que ele,
a pessoa sendo investigada, era mesmo seu filho; é verdade que ele era cego de
nascença, mas agora ele não é mais. No entanto, quanto a como ele recuperou sua
vista ou quem lhe abriu os olhos, eles se declararam não cientes. Ademais, eram
de opinião de que os investigadores mesmos deveriam demandar explicações do
próprio sujeito, visto que ele já tinha a idade suficiente para fazer
declarações em juízo.
De fato, foi
medo que levou os pais do que era cego adotarem tal posição. Aqui o autor
insere dois versículos para nos informar sobre a hostilidade que as comunidades
do movimento Jesus enfrentavam naqueles tempos (Jo 9,22-23). ‘Expulsar da sinagoga/comunidade’
foi uma arma poderosa a disposição dos detentores do poder desde sempre. Dito
isso, temos que notar que a ‘força tarefa’ que caçava Jesus de Nazaré se tinha dado
de frente com um muro outra vez!
Mas, não
desistiram! Convocaram o que era cego de nascença para depor outra vez.
Presumindo serem donos do processo, e esperando conseguir ‘uma delação
premiada’ as autoridades procuraram colocar as respostas na boca do respondente.
No entanto, ele se esquiva do estratagema e recusa concordar com a afirmação
condenatória: “é um pecador”, daquele que foi seu benfeitor (9,24) e testifica
a sua cura em termos favoráveis, frustrando o esquema dos poderosos que
perseguiam o Nazareno.
Recomeça o interrogatório
sobre os detalhes do acontecido (Jo 9,26). Como ele já tinha respondido estas
perguntas mais de uma vez, o que era cego ironiza destemidamente: “Por acaso
quereis também tornar-vos seus discípulos?” A cúpula reagiu com violência,
condenou-o, justificou-se com arrogância por serem discípulos de Moises. Alem
disso, declararam que sabiam de onde Moisés vinha, mas quanto ao que mudou a
condição do cego não sabiam da sua origem (cf. Jo 9, 28-30).
Outra
oportunidade para quem recuperou a vista, contestar o uso de teologia para fins
obscurantistas, apresentou-se (cf. Jo 9, 30-34). Ele desmascarou a hipocrisia
religiosa-política opressora dos seus interrogadores. Por mais coerente fosse
seu raciocínio teológico, ‘o supremo’ condenou seu autor como ‘pecador’ e se
vingou expulsando-o da comunidade pela sua ousadia em questionar as bases do
exercício de seu poder!
Chegamos o
ponto alto da narrativa: Jesus, tendo notícias sobre aquele a quem ele libertou
da sua cegueira de nascença, procurou o e o guiou passo a passo a uma profissão
da fé. A cena encerra-se com o gesto de reconhecimento da parte do que foi
curado, do Senhorio de Jesus de Nazaré.
Os últimos
versículos do capítulo 9 são paradoxais: Então disse Jesus: “Para um
discernimento é que vim a este mundo: para que os que não veem, vejam, e os que
veem, tornem-se cegos”. Alguns fariseus, que se achavam com ele, ouviram isso
lhe disseram: “Acaso também nós somos cegos?” Respondeu-lhes Jesus: “se fosseis
cegos, não teríeis pecado; mas dizeis: ‘Nós vemos!’ Vosso pecado permanece” (Jo
9, 39-41).
Educação como
conscientização da dignidade do cidadão é combatida vigorosamente pelos que
procuram inserir seu povo na onda neocolonial e recolonizadora - paradoxo está
no meio de nós ainda!

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