quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O cego de nascença (1)

O cego de nascença – Evangelho de João 9  (1)

O Evangelho de João é um documento altamente teológico. Ele ‘nasceu’ no final do 1º século nas comunidades perseguidas. A perseguição imperial das comunidades dos seguidores de Jesus de Nazaré evidencia a resistência do ser humano contra o Deus que caminha conosco. O texto deste livro tem sua maneira própria de provar essa tese. Ele oferece sete sinais para demonstrar a unicidade de Jesus de Nazaré como o revelador de Deus libertador, portador da salvação. É um texto denso; há camadas de significações. Também é visível o progresso na compreensão de cada sinal que no final provoca uma decisão a favor ou contra Jesus.

Nos ‘milagres’ da cura dos cegos narrados nos evangelhos sinóticos, vimos como aqueles que receberam sua vista de volta ‘seguiram Jesus no caminho’, enquanto os próprios discípulos tiveram dificuldades no seguimento. Não deram conta de entender as implicações do Reinado de Deus que se instaurava na práxis de Jesus. A cura do cego de nascença em João ocupa todo o capítulo 9 e elabora mais detalhadamente como ‘ver/enxergar’ causa mudanças. O texto também comprova: fazer os outros enxergar, isto é, conscientizar ou gerar criticidade no povo é muito perigoso.

Todo o Evangelho de João é permeado pela hostilidade que Jesus, o profeta de Nazaré, enfrenta nos detentores do poder e os fiscalizadores dos ‘bons costumes’. De fato, no capítulo oitavo, se conta a história da mulher flagrada em adultério e a contestação violenta que segue. As propostas do Nazareno, que vão além das ‘boas tradições’ do seu tempo, são resistidas com força. De fato últimos versículos do capítulo falam de uma tentativa de linchar Jesus, mas ele ‘ocultou-se’ e saiu do templo.
O capítulo décimo contém o discurso sobre o ‘bom pastor’. A imagem do ‘Pastor’ tem profundas ressonâncias para o povo judeu. O discurso de Jesus neste respeito causou divisão e confusão no meio de seus ouvintes. Enquanto os defensores do “status quo” acusavam Jesus de estar possuído por um diabo, os outros que tiveram o senso crítico rebateram tal acusação. Opinaram que a fala do profeta Jesus não são palavras de um endemoninhado, pois o demônio não acostuma “abrir os olhos” dos cegos!

Com essa introdução nós vamos passar para uma análise do capítulo 9, comentar e indicar algumas pistas para a aplicação da mensagem do capítulo para nossa realidade. Os seguidores de Jesus costumam ‘fazer memória’ das intervenções divinas no passado para poder discernir a presença deste mesmo Deus no seu presente. Vale lembrar que texto de João foi construído abrangendo muitos aspectos da vida da sociedade do tempo de Jesus; por exemplo, os versículos 1-5 referem à crença daquele tempo: a doença é resultado do pecado. O pecador era punido por Deus em diversas maneiras, inclusive a doença. Em vista disso é inserida aqui a pergunta dos discípulos: a cegueira foi causada pelo pecado do cego ou o dos seus pais?

Jesus, com sagacidade, explica que não foi por causa de pecado algum, nem da parte dele nem a dos seus pais que o homem nasceu cego. A sua condição é uma ocasião para se manifestar a obra de Deus. Em outras palavras, existe um plano de Deus que o ser humano ignora. Nos versículos 4 e 5 o Nazareno aponta para o sinal que ele iria realizar em breve. Alude a transformação que ele vai efetuar com as imagens da luz e da noite: luz, quer dizer, o dia que por sua vez simboliza a vida; a imagem da noite, que é escuridão que simboliza morte, a ausência da vida.


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