O cego de nascença – Evangelho de
João 9 (1)
O Evangelho de João é um documento
altamente teológico. Ele ‘nasceu’ no final do 1º século nas comunidades
perseguidas. A perseguição imperial das comunidades dos seguidores de Jesus de
Nazaré evidencia a resistência do ser humano contra o Deus que caminha conosco.
O texto deste livro tem sua maneira própria de provar essa tese. Ele oferece sete
sinais para demonstrar a unicidade de Jesus de Nazaré como o revelador de Deus
libertador, portador da salvação. É um texto denso; há camadas de significações.
Também é visível o progresso na compreensão de cada sinal que no final provoca
uma decisão a favor ou contra Jesus.
Nos ‘milagres’ da cura dos cegos narrados
nos evangelhos sinóticos, vimos como aqueles que receberam sua vista de volta ‘seguiram
Jesus no caminho’, enquanto os próprios discípulos tiveram dificuldades no
seguimento. Não deram conta de entender as implicações do Reinado de Deus que se
instaurava na práxis de Jesus. A cura do cego de nascença em João ocupa todo o
capítulo 9 e elabora mais detalhadamente como ‘ver/enxergar’ causa mudanças. O
texto também comprova: fazer os outros enxergar, isto é, conscientizar ou gerar
criticidade no povo é muito perigoso.
Todo o Evangelho de João é permeado
pela hostilidade que Jesus, o profeta de Nazaré, enfrenta nos detentores do
poder e os fiscalizadores dos ‘bons costumes’. De fato, no capítulo oitavo, se
conta a história da mulher flagrada em adultério e a contestação violenta que
segue. As propostas do Nazareno, que vão além das ‘boas tradições’ do seu tempo,
são resistidas com força. De fato últimos versículos do capítulo falam de uma
tentativa de linchar Jesus, mas ele ‘ocultou-se’ e saiu do templo.
O capítulo décimo contém o discurso
sobre o ‘bom pastor’. A imagem do ‘Pastor’ tem profundas ressonâncias para o
povo judeu. O discurso de Jesus neste respeito causou divisão e confusão no
meio de seus ouvintes. Enquanto os defensores do “status quo” acusavam Jesus de
estar possuído por um diabo, os outros que tiveram o senso crítico rebateram tal
acusação. Opinaram que a fala do profeta Jesus não são palavras de um
endemoninhado, pois o demônio não acostuma “abrir os olhos” dos cegos!
Com essa introdução nós vamos
passar para uma análise do capítulo 9, comentar e indicar algumas pistas para a
aplicação da mensagem do capítulo para nossa realidade. Os seguidores de Jesus costumam
‘fazer memória’ das intervenções divinas no passado para poder discernir a
presença deste mesmo Deus no seu presente. Vale lembrar que texto de João foi
construído abrangendo muitos aspectos da vida da sociedade do tempo de Jesus; por
exemplo, os versículos 1-5 referem à crença daquele tempo: a doença é resultado
do pecado. O pecador era punido por Deus em diversas maneiras, inclusive a doença.
Em vista disso é inserida aqui a pergunta dos discípulos: a cegueira foi
causada pelo pecado do cego ou o dos seus pais?
Jesus, com sagacidade, explica que
não foi por causa de pecado algum, nem da parte dele nem a dos seus pais que o
homem nasceu cego. A sua condição é uma ocasião para se manifestar a obra de
Deus. Em outras palavras, existe um plano de Deus que o ser humano ignora. Nos
versículos 4 e 5 o Nazareno aponta para o sinal que ele iria realizar em breve.
Alude a transformação que ele vai efetuar com as imagens da luz e da noite:
luz, quer dizer, o dia que por sua vez simboliza a vida; a imagem da noite, que
é escuridão que simboliza morte, a ausência da vida.

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