Aos cegos a
recuperação da vista... (Lc 4,18)
Dicionários elucidam o verbo
‘ver’ e o substantivo ‘vista’ para evidenciar as múltiplas dimensões desta
atividade humana. No manifesto político de Jesus de Nazaré “recuperar a vista
aos cegos” é um item importante (cf. Lc 4,18 e Is 61,1-2).
Todos os evangelhos contam da
cura dos cegos (Mc 8,22-26; 10,46-52; Mt 9,27-31; Lc 18,35-43; Jo 9). Atualmente
“a igreja em saída” está prestes a encerrar o ano de jubileu da misericórdia. Em
resposta ao chamado do Papa Francisco, recentemente, as revistas teológicas começaram
publicar artigos sobre a ‘Teologia da Libertação’. Esse patrimônio precioso da
tradição cristã “vê” a realidade, analisa a mesma à luz da palavra de Deus de maneira que os
profetas faziam nos tempos monárquicos na história de Israel.
O livro de Êxodo nos conta como
Deus viu a condição dos filhos de Israel (que gemiam sob o peso da escravidão)
e a levou em consideração (cf. Ex 2,23-25). O que aconteceu em seguida é a
história que se repete ao longo dos séculos. Ao fazer a leitura os sinais dos
tempos, percebe-se que hoje os seguidores do Deus Mamon (riqueza acumulada e
idolatrada) estão criando condições em que o mundo precisa de um novo “êxodo”. Procuramos
oferecer algumas simples reflexões sobre os textos sobre a cura dos cegos,
supracitados. Eventos recentes têm evidenciado as implicações da ‘mudança de
época’ que vivemos. Começamos com os textos dos sinóticos.
Os Evangelhos de Marcos e Mateus
têm dois episódios, cada um, da cura dos cegos. Autores comentam sobre a função
simbólica da cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26). Ele não tem nome, sua cura
é um processo lento que acontece em etapas. São os outros que o levam a Jesus
rogando sua intervençãoem prol dele; ele mesmo é passivo. O rabino o leva para
fora do povoado, o ambiente em que ele ficava cego. Uma vez que foi curado o
Nazareno instrui-lhe para não voltar ao mesmo ambiente, que lhe mantinha em
dependência. E ele não segue Jesus no caminho.
Com notável ironia o autor de
Marcos narra a cura do Bartimeu em 10,46-52. Jesus está de saída de Jericó, a
caminho para Jerusalém. A agitação gerada pela passagem da comitiva do Nazareno
desperta curiosidade do cego, sentado a beira do caminho; ele se informou sobre
o que acontecia. Sabendo que o renomado rabino passava por ali, ele começou a
gritar: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!” Os incomodados com os
gritos do excluído não conseguiram silenciá-lo, pelo contrário, seu clamor só
aumentava. O profeta parou, mandou chamá-lo, e indagou-lhe do que precisava:
“Mestre, eu quero ver de novo.” Seu pedido foi atendido; sua fé foi elogiada e
ele seguiu Jesus no caminho.
As narrativas deste episódio em
Mateus e Lucas têm semelhanças e diferenças. Em todos os três evangelhos sinóticos
este “milagre” é registrado após o terceiro anúncio da paixão de Jesus. Mateus
tem dois cegos, sem nome, a beira do caminho. Eles pedem: “Senhor, queremos que
nossos olhos se abram.” Uma vez restituída a visão eles seguiram Jesus. Enquanto
isso, Lucas tem um cego sem nome que pede: “Senhor, eu quero ver de novo.” Com sua
capacidade de “ver” restaurada ele segue Jesus.
O impressionante em Marcos é que
o texto da cura do cego sem nome de Betsaida (8,22-26) faz uma ‘inclusão’ com o
texto da cura da cegueira de Bartimeu de Jericó (10,46-52). A inclusão é uma
técnica línguistica muito usado na Bíblia que exemplifica o esquema – promessa
e cumprimento. Continuaremos a nossa reflexão sobre estes textos e o de João.

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