quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Aos cegos a recuperação da vista... (Lc 4,18)

Aos cegos a recuperação da vista... (Lc 4,18)

Dicionários elucidam o verbo ‘ver’ e o substantivo ‘vista’ para evidenciar as múltiplas dimensões desta atividade humana. No manifesto político de Jesus de Nazaré “recuperar a vista aos cegos” é um item importante (cf. Lc 4,18 e Is 61,1-2).

Todos os evangelhos contam da cura dos cegos (Mc 8,22-26; 10,46-52; Mt 9,27-31; Lc 18,35-43; Jo 9). Atualmente “a igreja em saída” está prestes a encerrar o ano de jubileu da misericórdia. Em resposta ao chamado do Papa Francisco, recentemente, as revistas teológicas começaram publicar artigos sobre a ‘Teologia da Libertação’. Esse patrimônio precioso da tradição cristã “vê” a realidade, analisa a mesma  à luz da palavra de Deus de maneira que os profetas faziam nos tempos monárquicos na história de Israel.

O livro de Êxodo nos conta como Deus viu a condição dos filhos de Israel (que gemiam sob o peso da escravidão) e a levou em consideração (cf. Ex 2,23-25). O que aconteceu em seguida é a história que se repete ao longo dos séculos. Ao fazer a leitura os sinais dos tempos, percebe-se que hoje os seguidores do Deus Mamon (riqueza acumulada e idolatrada) estão criando condições em que o mundo precisa de um novo “êxodo”. Procuramos oferecer algumas simples reflexões sobre os textos sobre a cura dos cegos, supracitados. Eventos recentes têm evidenciado as implicações da ‘mudança de época’ que vivemos. Começamos com os textos dos sinóticos.

Os Evangelhos de Marcos e Mateus têm dois episódios, cada um, da cura dos cegos. Autores comentam sobre a função simbólica da cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26). Ele não tem nome, sua cura é um processo lento que acontece em etapas. São os outros que o levam a Jesus rogando sua intervençãoem prol dele; ele mesmo é passivo. O rabino o leva para fora do povoado, o ambiente em que ele ficava cego. Uma vez que foi curado o Nazareno instrui-lhe para não voltar ao mesmo ambiente, que lhe mantinha em dependência. E ele não segue Jesus no caminho.

Com notável ironia o autor de Marcos narra a cura do Bartimeu em 10,46-52. Jesus está de saída de Jericó, a caminho para Jerusalém. A agitação gerada pela passagem da comitiva do Nazareno desperta curiosidade do cego, sentado a beira do caminho; ele se informou sobre o que acontecia. Sabendo que o renomado rabino passava por ali, ele começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!” Os incomodados com os gritos do excluído não conseguiram silenciá-lo, pelo contrário, seu clamor só aumentava. O profeta parou, mandou chamá-lo, e indagou-lhe do que precisava: “Mestre, eu quero ver de novo.” Seu pedido foi atendido; sua fé foi elogiada e ele seguiu Jesus no caminho.

As narrativas deste episódio em Mateus e Lucas têm semelhanças e diferenças. Em todos os três evangelhos sinóticos este “milagre” é registrado após o terceiro anúncio da paixão de Jesus. Mateus tem dois cegos, sem nome, a beira do caminho. Eles pedem: “Senhor, queremos que nossos olhos se abram.” Uma vez restituída a visão eles seguiram Jesus. Enquanto isso, Lucas tem um cego sem nome que pede: “Senhor, eu quero ver de novo.” Com sua capacidade de “ver” restaurada ele segue Jesus.

O impressionante em Marcos é que o texto da cura do cego sem nome de Betsaida (8,22-26) faz uma ‘inclusão’ com o texto da cura da cegueira de Bartimeu de Jericó (10,46-52). A inclusão é uma técnica línguistica muito usado na Bíblia que exemplifica o esquema – promessa e cumprimento. Continuaremos a nossa reflexão sobre estes textos e o de João.



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