A
salvação – uma realidade tênue
O Evangelho de Lucas protagoniza os
pobres e excluídos como herdeiros preferidos da salvação oferecida em Jesus de
Nazaré. Entre os excluídos os publicanos recebem menção em seis capítulos do
texto (Lc 3, 5, 7, 15, 18 e 19); são os favorecidos na práxis de Jesus. É na
sua interação com este grupo que se revela a característica tênue da salvação
que toda a humanidade almeja desde sempre.
Lc 5,1-11.27-32 fala do chamado dos primeiros discípulos. Entre eles está
Levi/Mateus que Jesus chamou de seu local de trabalho, a coletoria dos
impostos. Ele deixou tudo e seguiu o rabino itinerante. Para comemorar o evento
ele deu um banquete. A presença de Jesus nessa festa, oferecida por um ‘pecador’,
foi duramente criticada pelos fariseus, os guardiões das leis e dos bons
costumes. Mas, o Nazareno rebate a crítica e mostra que sua missão é procurar todos
aqueles que se encontravam nas periferias da vida. São eles que necessitam da
salvação, pois os doentes precisam de médico, não aqueles que gozam de saúde
perfeita.
Diante da arrogância daqueles que,
convencidos de serem justos, desprezavam os outros, Jesus conta a parábola da
oração do fariseu e a do publicano (Lc 18,9-14). O fariseu discursa para Deus a
partir de seus méritos e bons costumes. No entanto o publicano fica longe, admite
humildemente a sua situação de pecador e roga pela misericórdia de Deus.
Contrariando a opinião comum que considerava justos aqueles que obedeciam as
leis tradicionais e práticas piedosas meticulosamente e também excluía todos
aqueles que não davam conta de observação perfeita das tradições, Rabino Jesus
ousa afirmar que o ‘pecador publicano’ voltou para casa justificado e não o
fariseu, o minucioso observador das tradições!
A história de Zaqueu, um homem capaz de
iniciativas fora de comum, é interessante (Lc 19,1-10). Ele desejava
ardentemente ver o renomado Galileu que passava por ali. Seus esforços neste empreendimento foram
amplamente recompensados: o Nazareno foi hospedar-se em sua casa! Outra vez
Jesus escandalizou os ‘puros’. Foi o momento de uma revelação importante: Jesus
veio para salvar a todos. O publicano Zaqueu não pode ser excluído do abraço do
Pai que abrange a todos.
O discurso de Zaqueu na ocasião (Lc 19,8)
evidência a implicação da conversão, a salvação. Ele propõe distribuir metade
de seus bens aos pobres. Mais ainda, vai restituir quádruplo aos que foram
defraudados. Essa restituição que o rico convertido propõe é difícil de executar!
De fato, o Brasil vive o momento de furiosa aniquilação do programa
governamental que procurava pagar a dívida social aos seus cidadãos oprimidos
durante cinco séculos, desde a chegada dos colonizadores.
Diante da perplexidade que o momento gera
é necessário entender as imagens que Jesus usa para falar da natureza tênue do
Reinado de Deus (Lc 13,18-21). A investida neocolonial visa estancar o agir
político de uma parte considerável da população brasileira. Aqui é que o
sentido do texto supracitado ilumina nossa história em construção. O Reino Jesus
de Nazaré instaura é igual à semente de mostarda, uma planta sazonal que pode
chegar até a servir às aves construírem seus ninhos. De novo, o Reino é como o fermento
que leveda uma determinada medida de farinha; outra medida de farinha precisa
de uma outra porção de fermento!
É paradoxal - os projetos que visam
implantar o Reino de Deus são pequenos e transitórios! O poder da riqueza
acumulada e idolatrada pode reduz a nada o tênue rebento que é o Reinado de Deus?

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