quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A salvação - uma realidade tênue

A salvação – uma realidade tênue

       O Evangelho de Lucas protagoniza os pobres e excluídos como herdeiros preferidos da salvação oferecida em Jesus de Nazaré. Entre os excluídos os publicanos recebem menção em seis capítulos do texto (Lc 3, 5, 7, 15, 18 e 19); são os favorecidos na práxis de Jesus. É na sua interação com este grupo que se revela a característica tênue da salvação que toda a humanidade almeja desde sempre.
Lc 5,1-11.27-32 fala do chamado dos primeiros discípulos. Entre eles está Levi/Mateus que Jesus chamou de seu local de trabalho, a coletoria dos impostos. Ele deixou tudo e seguiu o rabino itinerante. Para comemorar o evento ele deu um banquete. A presença de Jesus nessa festa, oferecida por um ‘pecador’, foi duramente criticada pelos fariseus, os guardiões das leis e dos bons costumes. Mas, o Nazareno rebate a crítica e mostra que sua missão é procurar todos aqueles que se encontravam nas periferias da vida. São eles que necessitam da salvação, pois os doentes precisam de médico, não aqueles que gozam de saúde perfeita.
       Diante da arrogância daqueles que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros, Jesus conta a parábola da oração do fariseu e a do publicano (Lc 18,9-14). O fariseu discursa para Deus a partir de seus méritos e bons costumes. No entanto o publicano fica longe, admite humildemente a sua situação de pecador e roga pela misericórdia de Deus. Contrariando a opinião comum que considerava justos aqueles que obedeciam as leis tradicionais e práticas piedosas meticulosamente e também excluía todos aqueles que não davam conta de observação perfeita das tradições, Rabino Jesus ousa afirmar que o ‘pecador publicano’ voltou para casa justificado e não o fariseu, o minucioso observador das tradições!
       A história de Zaqueu, um homem capaz de iniciativas fora de comum, é interessante (Lc 19,1-10). Ele desejava ardentemente ver o renomado Galileu que passava por ali.  Seus esforços neste empreendimento foram amplamente recompensados: o Nazareno foi hospedar-se em sua casa! Outra vez Jesus escandalizou os ‘puros’. Foi o momento de uma revelação importante: Jesus veio para salvar a todos. O publicano Zaqueu não pode ser excluído do abraço do Pai que abrange a todos.
       O discurso de Zaqueu na ocasião (Lc 19,8) evidência a implicação da conversão, a salvação. Ele propõe distribuir metade de seus bens aos pobres. Mais ainda, vai restituir quádruplo aos que foram defraudados. Essa restituição que o rico convertido propõe é difícil de executar! De fato, o Brasil vive o momento de furiosa aniquilação do programa governamental que procurava pagar a dívida social aos seus cidadãos oprimidos durante cinco séculos, desde a chegada dos colonizadores.
       Diante da perplexidade que o momento gera é necessário entender as imagens que Jesus usa para falar da natureza tênue do Reinado de Deus (Lc 13,18-21). A investida neocolonial visa estancar o agir político de uma parte considerável da população brasileira. Aqui é que o sentido do texto supracitado ilumina nossa história em construção. O Reino Jesus de Nazaré instaura é igual à semente de mostarda, uma planta sazonal que pode chegar até a servir às aves construírem seus ninhos. De novo, o Reino é como o fermento que leveda uma determinada medida de farinha; outra medida de farinha precisa de uma outra porção de fermento!
       É paradoxal - os projetos que visam implantar o Reino de Deus são pequenos e transitórios! O poder da riqueza acumulada e idolatrada pode reduz a nada o tênue rebento que é o Reinado de Deus?

         

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