A procura
de poder e a procura de libertação:
Os discípulos versus os cegos curados nos
evangelhos.
Indicamos os trechos que falam
da ‘recuperação da vista’ dos cegos nos quatro evangelhos. Hoje a nossa
intenção é refletir sobre a ‘ironia’ em Marcos como preparação para passar para
o capítulo 9 de João que elabora a cura de cegueira e suas implicações
políticas e religiosas. Queremos mostrar que ainda hoje a capacidade de ‘ver’,
isto é, ter senso crítico é ressentido e vigorosamente combatido pelas elites,
assim como faziam no tempo de Jesus de Nazaré. Em segundo lugar, a percepção
dos que necessitam de cura (libertação) diferem muito a daqueles que querem
manter-se no poder.
Marcos
tem dois episódios de cura de cegos. O primeiro é a de um cego em Betsaida (Mc 8,22-26).
O acontecido marca o início da segunda etapa do ministério de Jesus. Após percorrer
os povoados de Galileia anunciando a iminência da instauração do Reinado de
Deus, Jesus “tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (Lc 9,51). Durante
esta viagem acontecem os “três anúncios de paixão”. Logo depois do terceiro
anúncio acontece a cura de Bartimeu, o cego de Jericó (Mc 10,46-52).
O mais notável
no trecho de Marcos que começa no 8,22 e vai até 10,52 é a dificuldade
crescente dos discípulos em entender o programa libertador de Jesus. Mas este
trecho, a ‘inclusão’, tem no seu início e no fim ‘cegos’ reconhecendo a
libertação que o Nazareno efetua na realidade humana. O contexto é sua pergunta
aos discípulos sobre o que pensavam os galileenses sobre sua identidade. Entre
as muitas respostas, é a confissão da fé do Pedro que recebe destaque: “Tu és o
Messias” (Mc 8,31; Mt 16,16; Lc 9,20).
Mas, Jesus
proibiu severamente a divulgação dessa identidade. Em seguida começa a ensiná-los
abertamente sobre o sofrimento, a rejeição, a morte e a ressurreição – o
caminho messiânico seu. No entanto, isto contraria a expectativa popular de um
messias poderosos e vencedor que aniquila seus inimigos com força brutal. Por
isso, Pedro o levou a parte e o repreendeu. Mas, por causa dos outros
discípulos, Jesus censurou sua ideia messiânica convencional (cf. Mc 8,31-33;
Mt 16,21-23).
O segundo
anúncio de paixão ocorre num horizonte marcado por medo e briga de poder entre
os discípulos (cf. Mc 9,34; Mt 18,1-5; Lc 9,45-48). Para entender o messianismo
de Jesus é preciso mudar a ideia que se tem a respeito do poder e seu exercício.
O desejo de poder que domina não serve a construção do Reinado de Deus.
Terceiro anuncio
da paixão está após os textos que falam da opção preferencial pelos pobres (cf.
Mc 10,13-16) e as exigências radicais do Reinado de Deus. De fato, naquele
momento alguém que tinha a boa vontade, porém não a disposição de desapegar-se
das suas riquezas se afasta de Jesus (Mc 10,17-22). Os discípulos, preocupados,
perguntam sobre a recompensa, pois deixarem tudo e seguirem o profeta
itinerante (Mc 10,23-31).
A situação está
tensa e os discípulos estão ‘atrás’ de Jesus na sua subida para Jerusalém (Mc
10,32-33). O terceiro anúncio de paixão acontece agora. A conjuntura exacerbou.
Os filhos de Zebedeu fizeram lobby para promover sua ascendência dentro da organização
e os outros brigaram feio com Tiago e João (Mc 10,41).
Eis a ironia dos
textos de cura dos cegos em Marcos; os discípulos não conseguem ir além das
ambições convencionais, porém são ‘os cegos’ entendem que aquele rabino é mais
do que alguém que levanta expectativas tradicionais. Seu pedido é que o ‘Filho
de Davi’ restaure sua capacidade de ‘ver’ de novo. Recuperado sua vista,
Bartimeu segue Jesus pelo ‘caminho’ (Mc 10,51).

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