A presença do mal na
história humana
O momento que o Brasil vive nos chama a fazer uma reflexão
sobre o enigma da presença do mal na história humana. A missão cristã tem por objetivo
curar os doentes e expulsar os espíritos maus dos corações humanas, das
instituições e das organizações, suas normas e leis. A prática libertadora de
Jesus desmascarava pessoas e organizações que promoviam opressão. A mesma
práxis hoje promove discernimento e a conscientização no povo oprimido.
Podemos falar da dualidade da vida e da sua infinidade das
tonalidades. As tentações de Jesus (Lc 4,1-13) nos ajudam entender os dois
caminhos do homem. O escriba que procurou saber quem era seu próximo (Lc 10,29)
e Jesus que inverteu a questão (Lc 10,36) exemplifica as duas forças que dinamizam
a condição humana.
Já na narrativa de Gn 2-3 o ser humano é colocado diante de
dois caminhos. A harmonia conforme os desígnios do criador (cf. Gn 2) e o
caminho do poder, da auto-suficiência, afastar-se do criador, ferindo animais,
oprimindo a mulher, o camponês e a própria terra (cf. Gn 3), são os dois
caminhos. A Bíblia continua a análise dessa experiência dialética da vida com
as histórias de Caim e Abel (Gn 4,1-16), o aumento da vingança com o surgimento
da cidade (Gn 4,17-24), o dilúvio (Gn 6-9), bem como a opressão globalizada no
relato da cidade de Babel (Gn 11,1-9). No meio de tudo isso há um reconhecimento
fundamental: “... os desígnios do coração humano são maus desde a sua infância”
(Gn 8,21).
Jesus segue na linha da sabedoria do seu povo (cf. Mc
7,21-23), ao passo que ele identificou o espírito de mal presente nos poderes
econômicos, políticos e religiosos. Paulo segue a mesma lógica (cf. Rm
7,21-23); esta também é a compreensão que a comunidade do Tiago tem (cf. Tg
1,13-15).
Fica claro que os males não acontecem por forças mágicas;
atribuir nossas más ações a forças externas é não querer assumira nossa
responsabilidade das nossas decisões e práticas. A procura de bodes expiatórios
sempre foi grande. O NT expressa essa mesma experiência cotidiana com o mal em
linguagem simbólica de noções como satanás, diabo e maligno, demônios, espírito
imundo, etc. São figuras que personificam o mal que experimentamos na vida.
Convém afirmar de novo que essa variedade de representações está sempre ligada
a atores históricos muito concretos e não a forças abstratas.
Agora, uma das atividades marcantes do mal na atualidade é a
lavagem cerebral, isto é, o trabalho empenhado da “imprensa” para fazer o povo
pensar de acordo com a opinião publicada. Seu sucesso de criminalizar uma parte
da população brasileira tem sido considerável, porém manipulação, vazamentos seletivos
e mentira nem sempre se ocultam de todos. Jesus dizia que uma das principais
características do diabo é mentira (Jo 8,40-44; cf. At 5,3; também Ap 12,9;
13,3-14; 20,8-10).
Outro elemento marcante do mal é a teologia da prosperidade
promovida pelas igrejas. Essa doutrina, de fato, é a sedução de consumismo
desenfreada disfarçada. Ensina-se que infelicidade na família, a pobreza, a
doença, os vícios, a homoafetividade e o fracasso são frutos do poder do diabo.
Propõe exorcismos e sessões de “descarrego” para se livrar de tudo isso sob a
condição de sacrifícios monetários. Adesivos como “Este foi Deus que me deu”
nos carros evidenciam o êxito de tal comércio. Em vez de desvendar as razões
socioeconômicas que geram desemprego, violência, drogas e outros males e que
estão por detrás de maioria das doenças e da pobreza, tal teologia acaba
abençoando uma sociedade baseada na injustiça.

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