quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A presença do mal na história humana

A presença do mal na história humana


O momento que o Brasil vive nos chama a fazer uma reflexão sobre o enigma da presença do mal na história humana. A missão cristã tem por objetivo curar os doentes e expulsar os espíritos maus dos corações humanas, das instituições e das organizações, suas normas e leis. A prática libertadora de Jesus desmascarava pessoas e organizações que promoviam opressão. A mesma práxis hoje promove discernimento e a conscientização no povo oprimido.

Podemos falar da dualidade da vida e da sua infinidade das tonalidades. As tentações de Jesus (Lc 4,1-13) nos ajudam entender os dois caminhos do homem. O escriba que procurou saber quem era seu próximo (Lc 10,29) e Jesus que inverteu a questão (Lc 10,36) exemplifica as duas forças que dinamizam a condição humana.

Já na narrativa de Gn 2-3 o ser humano é colocado diante de dois caminhos. A harmonia conforme os desígnios do criador (cf. Gn 2) e o caminho do poder, da auto-suficiência, afastar-se do criador, ferindo animais, oprimindo a mulher, o camponês e a própria terra (cf. Gn 3), são os dois caminhos. A Bíblia continua a análise dessa experiência dialética da vida com as histórias de Caim e Abel (Gn 4,1-16), o aumento da vingança com o surgimento da cidade (Gn 4,17-24), o dilúvio (Gn 6-9), bem como a opressão globalizada no relato da cidade de Babel (Gn 11,1-9). No meio de tudo isso há um reconhecimento fundamental: “... os desígnios do coração humano são maus desde a sua infância” (Gn 8,21).

Jesus segue na linha da sabedoria do seu povo (cf. Mc 7,21-23), ao passo que ele identificou o espírito de mal presente nos poderes econômicos, políticos e religiosos. Paulo segue a mesma lógica (cf. Rm 7,21-23); esta também é a compreensão que a comunidade do Tiago tem (cf. Tg 1,13-15).
Fica claro que os males não acontecem por forças mágicas; atribuir nossas más ações a forças externas é não querer assumira nossa responsabilidade das nossas decisões e práticas. A procura de bodes expiatórios sempre foi grande. O NT expressa essa mesma experiência cotidiana com o mal em linguagem simbólica de noções como satanás, diabo e maligno, demônios, espírito imundo, etc. São figuras que personificam o mal que experimentamos na vida. Convém afirmar de novo que essa variedade de representações está sempre ligada a atores históricos muito concretos e não a forças abstratas.

Agora, uma das atividades marcantes do mal na atualidade é a lavagem cerebral, isto é, o trabalho empenhado da “imprensa” para fazer o povo pensar de acordo com a opinião publicada. Seu sucesso de criminalizar uma parte da população brasileira tem sido considerável, porém manipulação, vazamentos seletivos e mentira nem sempre se ocultam de todos. Jesus dizia que uma das principais características do diabo é mentira (Jo 8,40-44; cf. At 5,3; também Ap 12,9; 13,3-14; 20,8-10).

Outro elemento marcante do mal é a teologia da prosperidade promovida pelas igrejas. Essa doutrina, de fato, é a sedução de consumismo desenfreada disfarçada. Ensina-se que infelicidade na família, a pobreza, a doença, os vícios, a homoafetividade e o fracasso são frutos do poder do diabo. Propõe exorcismos e sessões de “descarrego” para se livrar de tudo isso sob a condição de sacrifícios monetários. Adesivos como “Este foi Deus que me deu” nos carros evidenciam o êxito de tal comércio. Em vez de desvendar as razões socioeconômicas que geram desemprego, violência, drogas e outros males e que estão por detrás de maioria das doenças e da pobreza, tal teologia acaba abençoando uma sociedade baseada na injustiça.


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