quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A demonologia do Antigo Testamento

A demonologia do Antigo Testamento

     Hoje nós vamos examinar a linguagem que o AT usa para falar do seu entendimento da presença do mal na realidade humana. A primeira observação é que o AT cultiva um dualismo moderado; quer dizer, tudo, inclusive o bem e o mal vêm de Deus. Nós já vimos uma intuição fundamental: “... os desígnios do coração humano são maus desde a sua infância” (Gn 8,21); porém essa é moderada por outra, de força igual: “Se aceitamos de Deus os bens, não devemos também aceitar os males?” (Jó 2,10). É importante notar que a tradição judaica foi influenciada pelos imperialistas persas, gregas e romanas até chegar o horizonte apocalíptico em que Jesus de Nazaré atuou.

     Na demonologia do AT há termos genéricos para designar demônios coletivos (os demônios do deserto, divindades de outros povos, divindades ligadas a morte, peste, doença, epidemias etc.) e nomes próprios para designar os demônios individuais (Azazel, Asmodeu, Beliya’al, Ba’al Zebub etc.). A serpente, o Leviatã e os serafins recebem menção especial. A serpente, com seu simbolismo muito diversificado nas mitologias, representa na Bíblia, a encarnação da ordem contrária a Deus. Leviatã representa o poder caótico das águas primordiais enquanto os serafins são criaturas celestiais a serviço de Javé (cf. Is 6,2.6).

     O Satanás: adversário, inimigo, acusador, promotor etc. tem sua origem nos tribunais. Como a Israel se formou a partir de vários grupos de diferentes culturas e lugares, assumiu os traços de satanás que cada povo cultivava, incorporando-os na sua demonologia progressivamente. No livro de Jó satanás está entre os filhos de Deus (Jó 1,6). Podemos ler em 1Cr 21,1 o satanás está a serviço de Deus como aquele que executa o mal. O livro de Eclesiástico apresenta satanás como adversário, o inimigo. O verbo “satanizar” é usado com significado de odiar, hostilizar ou acusar como lemos no Gn 27,41. Em resumo é possível dizer que o AT não conhece um poder do mal absoluto e contrário a Deus.

A religião dos persas (zoroastrismo) é baseada na guerra eterna entre Ahura Mazada (o bem, a luz, a verdade e a vida) e Angra Mayiniu (o mal, a mentira, as trevas, o caos e a morte). Judeus entraram em contato com o zoroastrismo depois que Ciro derrotou os Babilônios em 539 a.C. Os persas creditaram os males da vida a demônios maléficos. Ao lado desses havia demônios bons como querubins que guardavam palácios e templos etc. Estes passaram para o judaísmo e foram equiparados aos anjos protetores.

A opressão dos gregos a partir de 332 a.C. deu um novo impulso à demonologia judaica. O livro de Tobias (deste período) já fala em exorcismo. Expulsar os demônios ocupou um lugar importante na prática libertadora de Jesus, pois ele comungava com seu povo a crença na ação das forças destruidoras (demônios, satanás etc.). As ideias do Platão (429-377 a.C.) influenciaram a demonologia grega: há uma série de demônios entre o mundo das pessoas e o olimpo, o monte das divindades; a habitação natural dos demônios seria o ar; eles servem como intermediários entre o céu e a terra; entre eles têm os bons e os maus. Recorria-se à magia e à bruxaria para proteger se dos demônios malignos.

No período altamente conflitiva dos selêucidas (séc. 2 a.C.) os judeus passaram a interpretar a sua condição em linguagem teológica como uma grande batalha cósmica – é a cosmovisão apocalíptica judaica no tempo de Jesus. E por fim a crueldade romana contribuiu ainda mais para que os judeus vissem satanás e seus demônios agindo nas forças do reino do mal que vinha de Roma.


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