terça-feira, 16 de agosto de 2016

Vocação - um desafio contextualizado (2)

Vocação – um desafio contextualizado (2)


A primeira das “confissões” do Profeta Jeremias (Jr 11,18-12,6) fala da perseguição que começou com a campanha de vilificação contra ele pelos seus parentes de conterrâneos e que tornou-se em ameaça de morte. Este profeta incômodo favoreceu a centralização do culto em Jerusalém durante a reforma do rei Josias (640-609 a.C). Entretanto ele condenou inequivocamente a fé fetichista do seu povo e a falsa segurança baseada nos rituais realizadas no templo (cf. Jr 7 e 26). Jeremias levanta a pergunta, feita frequentemente no tempo de exílio, e que desde então se repete, sobre o colossal problema da retribuição: “Por que prosperam os perversos e os traidores vivem na paz? (Jr 12,1b). Deus não propõe uma solução, mas exige que o profeta mantenha sua fé e coragem no meio dos seus sofrimentos.
Jeremias passa por uma crise de vocação (Jr 15,10-21). É estranho seu destino – o de ter nascido profeta só para anunciar o que agrava a culpa e precipitar a desgraça do seu povo e sua nação. Se Deus não faz caso de sua intercessão, vale a pena ser profeta? Seus oráculos são ameaças repeti­das, que não dão lugar ao consolo, antes, lhes provocam an­tipatia e hostilidade. Seu fascínio pela palavra do Senhor privou-o de uma vida igual à dos outros (Jr 15,16-18). Na sua aflição o profeta chega a reclamar de Deus o “arroio enganador”, como que retorcendo a imagem de Deus. Mas, o Senhor responde reiterando suas exigências. A solidariedade do profeta com o povo não pode consistir em afastar-se de Deus junto com o povo; Jeremias tem que voltar para Deus arrastando o povo de volta. Deus renova a promessa feita na ocasião do seu chamado profético, assim preparando o profeta para a crise tremenda que se aproxima.
Os adversários de Jeremias insistem no rápido cumpri­mento das ameaças que ele anunciava! O profeta esclarece que ele mesmo não pediu desgraças, pelo contrário, ele pede cura e salvação a Deus (Jr 17,14-18). “Tu sabes o que meus lábios pronunciam, tu o tens diante de ti”, disse Jeremias (Jr 17,16b). Mesmo no sofrimento imenso sua fé e sua confiança não se abalam (cf. Jr. 17,17-18). Os inimigos planejam calar sua voz profética (Jr 18,18-23); Jeremias não ia fazer fal­ta, pois havia muitos outros (mercenários mais ‘prudentes’ até!) para realizar as funções sacerdotais e proféticas. Eles consideram sua língua importuna! O profeta chega a pedir a morte dos seus adversários! Se Deus prometeu estar do lado do profeta, Ele terá que enfrentar seus inimigos. A neutralidade da parte de Deus será cumplicidade! O juiz não pode alegar ignorância, visto que já “conhece o plano homicida” dos seus inimigos (Jr 18,23).
Jeremias reclama amargamente contra o Senhor que o “se­duziu” (Jr 20,7-18). Ele sentia-se obrigado a anunciar vio­lência e destruição, enquanto todo mundo queria ouvir outro tipo de mensagem. Para Jeremias a palavra de Deus se tinha tornado o motivo de zombaria constante a qual ele era sujei­tado. Por mais que ele tentava evitar tais pronunciamentos, sentia-se dominado por uma força irresistível que lhe fazia continuar anunciar desastres, caso a nação e seus governan­tes não voltassem à Aliança com Javé. Seus inimigos o espiavam para apanhá-lo em algum tropeço para se vingar dele. Mesmo nessa situação Jeremias louva o Senhor por livrar o pobre do poder dos perversos (cf. Jr 20,11-13). Ao mesmo tempo ele chega a praguejar contra seu próprio nascimento, depois da disputa com Fassur, o sacerdote (cf. 20,1-6)!






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