Vocação – um desafio
contextualizado (2)
A primeira das “confissões” do
Profeta Jeremias (Jr 11,18-12,6) fala da perseguição que começou
com a campanha de vilificação contra ele pelos seus parentes de
conterrâneos e que tornou-se
em ameaça de morte. Este profeta incômodo favoreceu a centralização
do culto em Jerusalém durante a reforma do rei Josias (640-609 a.C).
Entretanto ele condenou inequivocamente a fé fetichista do seu povo
e a falsa segurança baseada nos rituais realizadas no templo (cf. Jr
7 e 26). Jeremias levanta a pergunta, feita frequentemente no tempo
de exílio, e que desde então se repete, sobre o colossal problema
da retribuição: “Por que prosperam os perversos e os traidores
vivem na paz? (Jr 12,1b). Deus não propõe uma solução, mas exige
que o profeta mantenha sua fé e coragem no meio dos seus
sofrimentos.
Jeremias passa por uma crise de vocação
(Jr 15,10-21). É estranho seu destino – o de ter nascido profeta
só para anunciar o que agrava a culpa e precipitar a desgraça do
seu povo e sua nação. Se Deus não faz caso de sua intercessão,
vale a pena ser profeta? Seus oráculos são ameaças repetidas,
que não dão lugar ao consolo, antes, lhes provocam antipatia e
hostilidade. Seu fascínio pela palavra do Senhor privou-o de uma
vida igual à dos outros (Jr
15,16-18). Na sua aflição o
profeta chega a reclamar de Deus o “arroio enganador”, como que
retorcendo a imagem de Deus. Mas, o Senhor responde reiterando suas
exigências. A solidariedade do profeta com o povo não pode
consistir em afastar-se de Deus junto com o povo; Jeremias tem que
voltar para Deus arrastando o povo de volta. Deus renova a promessa
feita na ocasião do seu chamado profético, assim preparando o
profeta para a crise tremenda que se aproxima.
Os adversários de Jeremias insistem no
rápido cumprimento das ameaças que ele anunciava! O profeta
esclarece que ele mesmo não pediu desgraças, pelo contrário, ele
pede cura e salvação a Deus (Jr 17,14-18). “Tu sabes o que meus
lábios pronunciam, tu o tens diante de ti”, disse Jeremias (Jr
17,16b). Mesmo no sofrimento imenso sua fé e sua confiança não se
abalam (cf. Jr. 17,17-18). Os inimigos planejam calar sua voz
profética (Jr 18,18-23); Jeremias não ia fazer falta, pois
havia muitos outros (mercenários mais ‘prudentes’ até!) para
realizar as funções sacerdotais e proféticas. Eles consideram sua
língua importuna! O profeta chega a pedir a morte dos seus
adversários! Se Deus prometeu estar do lado do profeta, Ele terá
que enfrentar seus inimigos. A neutralidade da parte de Deus será
cumplicidade! O juiz não pode alegar ignorância, visto que já
“conhece o plano homicida” dos seus inimigos (Jr 18,23).
Jeremias reclama amargamente contra o
Senhor que o “seduziu” (Jr 20,7-18). Ele sentia-se obrigado
a anunciar violência e destruição, enquanto todo mundo queria
ouvir outro tipo de mensagem. Para Jeremias a palavra de Deus se
tinha tornado o motivo de zombaria constante a qual ele era
sujeitado. Por mais que ele tentava evitar tais pronunciamentos,
sentia-se dominado por uma força irresistível que lhe fazia
continuar anunciar desastres, caso a nação e seus governantes
não voltassem à Aliança com Javé. Seus inimigos o espiavam para
apanhá-lo em algum tropeço para se vingar dele. Mesmo nessa
situação Jeremias louva o Senhor por livrar o pobre do poder dos
perversos (cf. Jr 20,11-13). Ao mesmo tempo ele chega a praguejar
contra seu próprio nascimento, depois da disputa com Fassur, o
sacerdote (cf. 20,1-6)!

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