Vocação – um desafio contextualizado (1)
No período pós-Vat 2 a Igreja católica no Brasil guarda o mês de agosto como o mês vocacional. Atividades diversas e momentos especiais promovem reflexões e celebrações das formas tradicionais de organização das vocações; elas surgiram como respostas aos desafios históricos em seu tempo. Os eventos expressam também a abertura às novas formas de resposta que o Espírito criador continua gerando nos fiéis em cada época. Nesta ocasião nós oferecemos um exame da experiência da vida do Profeta Jeremias como alguém que recebeu um chamado específico de Deus. Essa reflexão faz parte da nossa tentativa de contribuir, por menor que seja tal contribuição, à resposta cristã ao assalto que o império (hoje o capitalismo patrimonial pós-moderno) realiza neste momento para aniquilar os últimos redutos de resistência contra sua dominação em nosso país. Os profetas bíblicos ainda são lembrados hoje pela sua luta contra imperialismo e por ter chamado seu povo de volta para o “caminho de Deus”. Apesar da distância no tempo, há muita semelhança entre nosso tempo e os dos profetas.
Jeremias foi chamado ainda jovem (cf. Jr 1,6), e instituído profeta sobre as nações: “para arrancar e arrasar, para demolir e destruir, para construir e plantar” (Jr 1, 10). Fiel a sua vocação ele permaneceu firme como “uma cidade fortificada, uma coluna de ferro” (Jr 1,18) para promover uma ideologia, a da Aliança com Senhor Deus, que a elite e os poderosos do seu tempo combatiam energicamente. Sua ideologia referia à organização social, econômica e religiosa baseada em partilha, solidariedade, fraternidade e não no poder de ganância e a capacidade de acumular. De fato, a monarquia tinha se mostrado amplamente incapaz de ser fiel a essa noção fundante da nação judaica em ambos os países: Israel e Judá.
A Palestina passou por um período de grave instabilidade política e militar entre o final do século 7 e o início do século 6 antes de Cristo, durante a contenta entre Assíria, Egito e Babilônia para determinar a dominação imperialista da região. Nós já falamos dos cinco reis de Judá neste período que procuravam preservar a autonomia da sua nação aliando-se a um ou outro das potências. No entanto, Jeremias, pregava a volta para os caminhos de Aliança com Deus para salvar a nação, como tinham feito também os outros profetas. No seu ver os desastres vindouros seriam o castigo de Deu por ter esquecido a justiça da Aliança. Ele tinha a percepção clara de que a Babilônia ia triunfar na peleja e a submissão a Nabucodonosor como o meio de evitar um desastre nacional.
Jeremias profetizou numa nação profundamente dividida. Um grupo liderado por falsos profetas promovia a ilusão de que o Templo e seus ritos garantiriam a segurança da nação. Um segundo grupo acreditava fanaticamente na força das armas e queria resistir militarmente à invasão de qualquer uma das potências. O terceiro grupo egípcio-filo se posicionou contra os babilônios. Entretanto todos eles tinham se esquecido da confiança nacional no Deus de Aliança. De fato Jerusalém e seu templo foram arrasados no chão e o povo foi exilado em Babilônia (586 a.C). O quase meio século em que Jeremias profetizou, ele passou por sofrimentos incalculáveis dos quais temos alguns indícios leves no livro de Jeremias. São 5 perícopes entre os capítulos 10 a 20 do livro de Jeremias (Jr 11,18-12,6; 15,10-21; 17,14-18; 18,18-23) que vamos examinar na segunda parte da nossa reflexão.
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