Jeremias, o servo
sofredor.
As “confissões”
do Profeta Jeremias nos revelam uma figura extraordinária que
representa de antemão Jesus de Nazaré no AT. Sua fidelidade à
vocação profética fez com que ele não conseguisse levar a vida
igual à dos seus concidadãos. Ele se sente compelido a proferir
oráculos contrariados e contestados a toda hora; por causa desses
ele se torna objeto de zombaria e é hostilizado. É verdade que ele
sobreviveu atentados contra sua vida, pois tinha amigos entre os
poderosos do país. No entanto, isto não tira-lhe o sofrimento
humano que qualquer pessoa na sua situação, em qualquer época, de
qualquer nação, passaria.
Como todos os
profetas do AT fizeram, Jeremias condenou a infidelidade da nação à
Aliança, o que resultou em ritualismo vazio e sincretismos que
desvirtuaram a liturgia Javista. A idolatria consequente deu lugar
para injustiças sociais abomináveis aos olhos de Javé, o Deus da
Aliança. Durante os quarenta anos que Jeremias profetizou a
Palestina era cobiçada pelos poderes imperiais (Assíria, Egito e
Babilônia) que batalhavam para estabelecer sua supremacia na região.
Jeremias teve a sagacidade para identificar a Babilônia como o
vencedor. Ele favoreceu submissão ao Nabucodonosor e interpretou
essa como castigo de Javé pela infidelidade da nação à Aliança.
Entretanto as facções e os (numerosos) falsos profetas fizeram tudo
para afogar ou até mesmo apagar a voz de Jeremias. O rei Joaquim era
o que menos simpatizou com Jeremias, pois o rei era partidário da
facção que apostou no Egito na peleja contra Babilônia. No livro
de Jeremias as “confissões” encontram-se entre os oráculos
proferidos, principalmente, durante o reino de Joaquim.
Jeremias, o
verdadeiro profeta, fez questão fazer sua mensagem ouvida, mesmo
quando estava impedido a anunciá-la pessoalmente. Ele manda Baruc
registrar seus oráculos num pergaminho (Jr 36,4). Este foi lido ao
publico no templo (Jr 36,10); houve uma segunda leitura do mesmo para
o benefício da cúpula do governo (Jr 36,15). Impressionados, eles
organizaram uma leitura na presença do rei, mas antes, tomaram
providências para que o profeta e seu secretário se escondessem da
ira real vindoura. Um oficial fez a leitura na presença do rei (Jr
36,21). Na medida que a leitura progredia, o rei foi cortando o rolo
em pedaços e jogando-os no fogo, não obstante os protestos de
alguns dos seus cortesãos (Jr 36,25). Em seguida mandou prender
Jeremias e Baruc, mas ficou sem sucesso. Mais tarde o profeta mandou
seu secretário escrever outro rolo que recebeu até acréscimos (Jr
36,32). Nós já mencionamos como os oráculos de Jeremias, junto com
suas ações simbólicas e detalhes biográficos (inclusive as
“confissões”) foram lembrados pelos exilados em Babilônia,
Egito e pelos que permaneceram a Palestina.
No livro do Profeta
Isaías há quatro “cantos do servo sofredor” (Is 42,1-9; 49,1-6;
50,4-9.10-11; 52,13-53,12) nos quais largamente se espelham a vida
sofrida de Jeremias. Estão entre os primeiros textos do AT que
interpretaram o escândalo da crucificação de Jesus de Nazaré e
deram origem a fé na ressurreição. Será interessante observar
como a memória dos sofrimentos de alguns dos nossos perseguidos na
vida pública hoje poderá servir como a força motora da retomada de
progresso social, uma vez que o retrocesso que invade a sociedade
brasileira no momento perder seu vigor. Nós vamos analisar, em
seguida, a seleção dos textos do livro do Profeta Jeremias lida na
liturgia para captar a mensagem central do profeta.

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