quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Jeremias, o servo sofredor.

Jeremias, o servo sofredor.

As “confissões” do Profeta Jeremias nos revelam uma figura extraordinária que representa de antemão Jesus de Nazaré no AT. Sua fidelidade à vocação profética fez com que ele não conseguisse levar a vida igual à dos seus concidadãos. Ele se sente compelido a proferir oráculos contrariados e contestados a toda hora; por causa desses ele se torna objeto de zombaria e é hostilizado. É verdade que ele sobreviveu atentados contra sua vida, pois tinha amigos entre os poderosos do país. No entanto, isto não tira-lhe o sofrimento humano que qualquer pessoa na sua situação, em qualquer época, de qualquer nação, passaria.

Como todos os profetas do AT fizeram, Jeremias condenou a infidelidade da nação à Aliança, o que resultou em ritualismo vazio e sincretismos que desvirtuaram a liturgia Javista. A idolatria consequente deu lugar para injustiças sociais abomináveis aos olhos de Javé, o Deus da Aliança. Durante os quarenta anos que Jeremias profetizou a Palestina era cobiçada pelos poderes imperiais (Assíria, Egito e Babilônia) que batalhavam para estabelecer sua supremacia na região. Jeremias teve a sagacidade para identificar a Babilônia como o vencedor. Ele favoreceu submissão ao Nabucodonosor e interpretou essa como castigo de Javé pela infidelidade da nação à Aliança. Entretanto as facções e os (numerosos) falsos profetas fizeram tudo para afogar ou até mesmo apagar a voz de Jeremias. O rei Joaquim era o que menos simpatizou com Jeremias, pois o rei era partidário da facção que apostou no Egito na peleja contra Babilônia. No livro de Jeremias as “confissões” encontram-se entre os oráculos proferidos, principalmente, durante o reino de Joaquim.

Jeremias, o verdadeiro profeta, fez questão fazer sua mensagem ouvida, mesmo quando estava impedido a anunciá-la pessoalmente. Ele manda Baruc registrar seus oráculos num pergaminho (Jr 36,4). Este foi lido ao publico no templo (Jr 36,10); houve uma segunda leitura do mesmo para o benefício da cúpula do governo (Jr 36,15). Impressionados, eles organizaram uma leitura na presença do rei, mas antes, tomaram providências para que o profeta e seu secretário se escondessem da ira real vindoura. Um oficial fez a leitura na presença do rei (Jr 36,21). Na medida que a leitura progredia, o rei foi cortando o rolo em pedaços e jogando-os no fogo, não obstante os protestos de alguns dos seus cortesãos (Jr 36,25). Em seguida mandou prender Jeremias e Baruc, mas ficou sem sucesso. Mais tarde o profeta mandou seu secretário escrever outro rolo que recebeu até acréscimos (Jr 36,32). Nós já mencionamos como os oráculos de Jeremias, junto com suas ações simbólicas e detalhes biográficos (inclusive as “confissões”) foram lembrados pelos exilados em Babilônia, Egito e pelos que permaneceram a Palestina.

No livro do Profeta Isaías há quatro “cantos do servo sofredor” (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9.10-11; 52,13-53,12) nos quais largamente se espelham a vida sofrida de Jeremias. Estão entre os primeiros textos do AT que interpretaram o escândalo da crucificação de Jesus de Nazaré e deram origem a fé na ressurreição. Será interessante observar como a memória dos sofrimentos de alguns dos nossos perseguidos na vida pública hoje poderá servir como a força motora da retomada de progresso social, uma vez que o retrocesso que invade a sociedade brasileira no momento perder seu vigor. Nós vamos analisar, em seguida, a seleção dos textos do livro do Profeta Jeremias lida na liturgia para captar a mensagem central do profeta.





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