quarta-feira, 6 de julho de 2016

O desafio Eucarístico, economia solidária.

O desafio Eucarístico, economia solidária

Enquanto os primeiros três evangelhos (sinóticos) contam da multiplicação dos pães em poucos versículos o Evangelho de João trata desta num capítulo inteiro (Jo 6). Para João a multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) e o caminhar sobre as águas (Jo 6,16-21) são dois dos sete sinais com os quais ele explica o Verbo de Deus que “se fez carne e armou sua tenda entre nós” (cf. Jo 1,15). O longo discurso sobre o pão em seguida (Jo 6,22-59) interpreta o simbolismo do pão dentro de uma longa tradição teológica libertadora oriunda dos primórdios da constituição do próprio povo judeu. Por fim, em Jo 6,60-71 temos a reação provocada por este sinal: “A partir desse momento, muitos discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Jesus” (v.66).

Sua narrativa da multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) é semelhante a dos sinóticos (cf. Mc 6,30-44 e paralelos). Este sinal que Jesus realiza deixa bem claro que a segurança da subsistência está no “pouco” de cada um que é repartido entre todos. Satisfeita a fome, as pessoas queriam pegar o Nazareno para fazê-lo rei, porque o sinal realizado por ele não é muito bem entendido por elas. Por isso Jesus se retirou sozinho, pois a garantia da dignidade não se encontra no poder de um líder que manda e resolve tudo, mas no serviço de cada um, que organiza a comunidade para o bem de todos. Os próprios discípulos desceram ao mar e foram de barca para o outro lado. Seu reencontro com Jesus, caminhando sobre o mar (símbolo da dominação imperial), é outro sinal. Eles tiveram de superar o medo e estranheza daquele que realizou uma revolução sócio-econômica, substituindo o sistema capitalista do império por outro, o sistema de partilha solidária.

Noutro dia a multidão foi à procura do Jesus. Ele começou a dialogar com essa (vv.22-34) a partir do seu desejo de continuar na situação de abundância sob um líder que providencia tudo sem exigir esforço. Ele mostrou a necessidade de buscar a vida plena, não só o alimento que sustenta a vida material. Tal vida plena exige adesão pessoal a ele. Em primeiro momento a multidão impõe condições para aceitar Jesus, o pão da vida: um milagre igual o do maná no deserto (cf. Ex 16).

Uma leitura rápida do Ex 16 evidencia o cuidado de Deus Pai para com seu povo, recém libertado da escravidão do Egito. Deu de comer ”o pão que desceu do céu” no deserto (Ex 16,13-30). Deu também regras para prevenir o acumulo ganancioso que racha a comunidade humana. O Nazareno se apresenta como aquele que vem deste Deus, que fez a opção preferencial pelo seu povo pobre e o conduz para a terra prometida onde construirá uma sociedade igualitária. Entram autoridades dos judeus na cena com críticas, pois Jesus é um conhecido, filho de um artesão apenas, e não admitem que um homem assim possa ter origem divina, nem que possa dar a vida definitiva (Jo 6,35-50).

Profeta Jesus continua esclarecendo essa vida plena e definitiva, e que ele vai oferecer sua própria vida (carne e sangue) em favor dos homens e a nova sociedade solidária (vv. 51-59). Só quando os homens, comprometendo-se com Jesus, aceitam a própria condição humana e vivem em favor dos outros é que começa a vida plena.

Contudo, a proposta do Nazareno é resistida e a desistência é grande (cf. Jo 6,60-71). Muitos persistiram na ideia de um Messias Rei, porém eles não queriam seguir Jesus até a sua morte, a morte entendida por eles, como fracasso. Somente um grupo bem reduzido adere a Jesus, acreditando num mundo solidário.
Pe. Kurian.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
;