O desafio Eucarístico, economia solidária
Enquanto os primeiros três evangelhos (sinóticos) contam da
multiplicação dos pães em poucos versículos o Evangelho de João trata desta num
capítulo inteiro (Jo 6). Para João a multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) e o
caminhar sobre as águas (Jo 6,16-21) são dois dos sete sinais com os quais ele explica
o Verbo de Deus que “se fez carne e armou sua tenda entre nós” (cf. Jo 1,15). O
longo discurso sobre o pão em seguida (Jo 6,22-59) interpreta o simbolismo do pão
dentro de uma longa tradição teológica libertadora oriunda dos primórdios da
constituição do próprio povo judeu. Por fim, em Jo 6,60-71 temos a reação provocada
por este sinal: “A partir desse momento, muitos discípulos voltaram atrás, e
não andavam mais com Jesus” (v.66).
Sua narrativa da
multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) é semelhante a dos sinóticos (cf. Mc 6,30-44
e paralelos). Este sinal que Jesus realiza deixa bem claro que a segurança da
subsistência está no “pouco” de cada um que é repartido entre todos. Satisfeita
a fome, as pessoas queriam pegar o Nazareno para fazê-lo rei, porque o sinal
realizado por ele não é muito bem entendido por elas. Por isso Jesus se retirou
sozinho, pois a garantia da dignidade não se encontra no poder de um líder que
manda e resolve tudo, mas no serviço de cada um, que organiza a comunidade para
o bem de todos. Os próprios discípulos desceram ao mar e foram de barca para o
outro lado. Seu reencontro com Jesus, caminhando sobre o mar (símbolo da
dominação imperial), é outro sinal. Eles tiveram de superar o medo e estranheza
daquele que realizou uma revolução sócio-econômica, substituindo o sistema
capitalista do império por outro, o sistema de partilha solidária.
Noutro dia a multidão foi à procura do Jesus. Ele começou a dialogar
com essa (vv.22-34) a partir do seu desejo de continuar na situação de
abundância sob um líder que providencia tudo sem exigir esforço. Ele mostrou a
necessidade de buscar a vida plena, não só o alimento que sustenta a vida
material. Tal vida plena exige adesão pessoal a ele. Em primeiro momento a
multidão impõe condições para aceitar Jesus, o pão da vida: um milagre igual o do
maná no deserto (cf. Ex 16).
Uma leitura rápida do Ex 16 evidencia o cuidado de Deus
Pai para com seu povo, recém libertado da escravidão do Egito. Deu de comer ”o
pão que desceu do céu” no deserto (Ex 16,13-30). Deu também regras para prevenir
o acumulo ganancioso que racha a comunidade humana. O Nazareno se apresenta
como aquele que vem deste Deus, que fez a opção preferencial pelo seu povo
pobre e o conduz para a terra prometida onde construirá uma sociedade
igualitária. Entram autoridades dos judeus na cena com críticas, pois Jesus é
um conhecido, filho de um artesão apenas, e não admitem que um homem assim possa
ter origem divina, nem que possa dar a vida definitiva (Jo 6,35-50).
Profeta Jesus continua esclarecendo essa vida plena e
definitiva, e que ele vai oferecer sua própria vida (carne e sangue) em favor
dos homens e a nova sociedade solidária (vv. 51-59). Só quando os homens,
comprometendo-se com Jesus, aceitam a própria condição humana e vivem em favor
dos outros é que começa a vida plena.
Contudo, a proposta do Nazareno é resistida e a desistência é
grande (cf. Jo 6,60-71). Muitos persistiram na ideia de um Messias Rei, porém eles
não queriam seguir Jesus até a sua morte, a morte entendida por eles, como
fracasso. Somente um grupo bem reduzido adere a Jesus, acreditando num mundo
solidário.
Pe. Kurian.

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