A liturgia da tradição católica comemora o nascimento de João Batista no dia 24 de junho. Vamos examinar rapidamente alguns trechos dos evangelhos para entender esta figura que é motivo de tantos festejos folclóricos.
Marcos apresenta João Batista como aquele que anuncia a chegada de Jesus de Nazaré (Mc 1,2-9). Citando profetas Malaquias 3,1 e Isaías 40,3 o autor introduz o precursor como a voz que clama no deserto. Sua mensagem é um chamado a se preparar para acolher as grandes mudanças (a nova criação) que “aquele que é mais forte do que eu” traria, num contexto de grandes expectativas populares de salvação na Palestina oprimida pelos poderosos e as elites.
O Evangelho de Mateus segue o esquema de Marcos, porém acrescenta palavras duras de condenação contra os fariseus e saduceus que vinham ao batismo (Mt 3,7-10). Lucas por sua vez enriquece sua narrativa com muitos detalhes. O movimento popular do João Batista é datado enumerando autoridades políticas e religiosas do tempo (Lc 3,1-3). Ele também prolonga a citação do livro de Isaías para estendê-la até o anúncio de uma salvação universal (Lc 3,4-6). Em Lucas a condenação severa é para “as multidões” e não às elites como em Mateus. No entanto, logo em seguida, aos que perguntaram sobre o que devia ser feito, João aconselhou partilha fraternal (Lc 3,11); aos publicanos ele aconselhou que não exigissem nada mais que é prescrito (Lc 3,13); e aos soldados ele exortou não molestar, nem extorquir e muito menos denunciar falsamente (Lc 3,14).
No evangelho de João temos o testemunho de João Batista sobre Jesus de Nazaré num diálogo com os investigadores que vieram de Jerusalém (cf. Jo 1,19-37) No interrogatório Batista esclareceu que ele não era o messias, era apenas a voz que clama no deserto. Seu batismo com a água era preparação para a revelação do que batizaria com o Espírito Santo e fogo.
É notável que o Evangelho de Lucas contraste o anúncio e o nascimento de João Batista com os de Jesus de Nazaré nos seus primeiros dois capítulos. A interessante história do anúncio do nascimento de João está em Lc 1,5-25. O importante é que Deus age nas situações, consideradas impossíveis, humanamente, para gerar esperança. Os pais de João já eram de idade avançada, portanto, sua gravidez era inesperada. O nascimento e a circuncisão de João (Lc 1,57-80) são ocasiões de grande alegria e agradecimento a Deus misericordioso sem deixar de causar temor. Na hora de dar o nome “João” ao recém-nascido seu pai Zacarias recebeu de volta sua capacidade de falar e bendisse a Deus com cântico “O Benedictus” (cf. Lc 1,67-70).
Desde seu nascimento João causou admiração (Lc 1,14-17.66.80). Sua pregação deu origem a um movimento no deserto; ele batizava no rio Jordão, no mesmo local onde, de acordo com comentaristas bíblicos, o povo de Deus teria no êxodo, atravessado o rio para tomar a cidade de Jericó (cf. Js 3,16). Isto quer dizer, ele não visava uma reforma das instituições tradicionais que não davam conta mais de responder aos anseios do povo, mas o recomeço do povo de Deus, uma nova aliança; de novo, no deserto. Jesus foi batizado por João (Mc 1,9; Mt 3,13; Lc 3,21; Jo 1,32-34).
João aponta para Jesus: “eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1,29.36) o que leva dois dos seus discípulos seguirem a Jesus de Nazaré. Do fim trágico de João Batista por assassinato a sangue frio pelas elites e poderosos nós lemos em Mc 6,14-29; Mt 14,1-12. Herodes silenciou brutalmente a voz que clama no deserto.

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