quarta-feira, 6 de julho de 2016

Caminhar sobre as águas

CAMINHAR SOBRE AS ÁGUAS


Os evangelhos falam de um movimento especial uma vez que a multidão foi alimentada no milagre de multiplicação dos pães (cf. Jo 6,14-15). Mc e Mt falam de Jesus obrigar os discípulos ir de barco para o outro lado (Mc 6,45;Mt 14,22); ele mesmo dispersou a multidão e subiu a montanha para rezar sozinho. João fala de Jesus refugiando-se na montanha aos perceber que havia pessoas na multidão que planejavam fazê-lo rei. Foi um momento em que Jesus se afastou dos seus discípulos; houve uma tentativa de fazer politicagem para usar Jesus e sua obra, em toda probabilidade, num esquema que procurava enquadrar o Nazareno dentro das expectativas messiânicas populares.

O que nos interessa aqui é o reencontro de Jesus com seus discípulos depois da multiplicação dos pães. Logo em seguida os textos evangélicos nos apresentam outro “milagre”; o de Jesus caminhar sobre as águas (Mc 6,45-52; cf. Mt 14,22-23; Jo 6,21). Os discípulos estão no barco ainda, fatigados de remar contra o vento; de repente eles veem o que imaginavam que seria um fantasma; começam a gritar amedrontados. Mas Jesus se identificou e pediu-lhes que tivessem coragem e subiu no barco com eles; logo o vento amainou. O evangelista faz questão de afirmar que os discípulos estavam cheios de espanto, pois não tinham entendido as implicações da multiplicação dos pães, ao passo que seus corações estavam endurecidos.

De acordo com os textos de Mc 6,53-56 e Mt 14,324-36, terminada a travessia, aportaram em Genesaré. Logo os habitantes reconheceram Jesus e trouxeram os doentes, rogando que lhes permitisse pelo menos tocar na orla de sue manto. E todos os que o tocavam eram salvos. O texto de João acrescenta toda uma catequese sobre o pão aqui.

A travessia e o reencontro de Jesus com seus discípulos que estes textos nos contam têm suas significações. A primeira é o distanciamento dos discípulos de Jesus que o milagre da multiplicação dos pães provoca; isto porque, eles pensam em aproveitar o momento para satisfazer as expectativas messiânicas populares do seu tempo enquanto Jesus tem outros planos. O reencontro dos discípulos com Jesus acontece por iniciativa do Nazareno. É um momento de terror para seus discípulos que tinham seu coração endurecido, por não tinham entendido nada a respeito dos pães.  Levando em consideração a natureza simbólica da linguagem da Bíblia, os estudiosos contemporâneos, atentos às implicações sociais e políticas do Reino de Deus, fazem uma leitura interessante para o mundo que sofre de investidas ferrenhas do capitalismo patrimonialista global.

Já vimos que Jesus fez questão de evitar de ser declarado rei dentro do sistema reinante, o que causou seu afastamento dos seus discípulos. Indubitavelmente, eles estavam envolvidos no movimento político que queria fazer do Nazareno o rei contra o imperador Romano. O Império Romano tinha domínio absoluto sobre o mar Mediterrâneo, e como os outros impérios, Roma também promovia e impunha sua versão do capitalismo. Ao comentar sobre o episódio da multiplicação notamos que a “multiplicação” (o jeito solidário de partilhar com a necessidade de cada um como critério) foi realizada num ambiente em que a solução capitalista foi julgada inviável. A maneira de Jesus resolver a questão de alimentar uma multidão onde o método imperialista não dava conta gerou estranheza entre Jesus e os seus. A metáfora de Jesus caminhar sobre as águas, o que assustou seus discípulos, é usada para enfatizar a superação do capitalismo pelo Reino de Deus, o que continua assustando as pessoas ainda em nossos dias.

Mateus acrescenta um detalhe interessante ao episódio de caminhar sobre as águas (cf. Mt 14,28-31). Pedro quer caminhar sobre as águas e faz seu pedido a Jesus. Jesus lhe convida para a aventura; ele desceu do barco, caminha sobre as águas indo ao encontro de Jesus até que sentiu o vento e sentiu medo e começou a afundar. Essa não é a metáfora da Igreja que faz acordo com os imperialistas para manter seus privilégios intactos?


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