O Profeta Oséias nos fala...
A literatura profética atravessa os séculos da monarquia no
AT. O dicionário Aurélio define o movimento profético apontando para sua liderança
carismática, seus aspectos religiosos e sociais, e acrescenta o seguinte comentário:
“tal movimento é geralmente considerado pelas ciências sociais como expressão
ideológica de grupos ou povos em situação de crise e dominação, e,
especialmente, em situação de subordinação colonial”. Diante da manobra
desonesta das forças obscurantistas que visam recolonizar o Brasil, é nos escritos
proféticos que encontraremos iluminação e indicações para a missão dos
discípulos missionários cidadãos.
O livro do Profeta Oséias trata de um período (750-722 a.C)
bem semelhante aos nossos dias. Grande prosperidade e expansão material junto com
corrupção e golpes de estado (cf. 2Rs 14,25), pois os reis israelitas esqueceram
sua missão e entrosaram se na política imperial. O programa brasileiro de
construir uma sociedade igualitária também sofreu desvio semelhante, quando os
governantes optararam realizar as extravagâncias escandalosas de consumo, como
a Copa do Mundo e as Olimpíadas que, de fato, marcam o “arrivismo” (inoportuno)
num mundo desigual. Em duas décadas, Israel teve seis reis dos quais quatro
foram assassinados. Ainda bem, que hoje o método golpista preferido é menos
sangrento: midiática-parlamentar.
Oséias condena a violência, corrupção e assassinatos, e
propõe a reorganização da sociedade com estruturas justas (cf. Os 4,1-3). Sua
pregação toda está impregnada por uma experiência pessoal tão profunda que se
tornou para ele um símbolo (cf. Os 1 e 3). A sua esposa Gomer, a mãe de seus
três filhos, deixou-lhe repetidas vezes para se entregar a outros amantes. Esse
amor não correspondido ultrapassou o nível de frustração pessoal para ser uma
enorme força de anúncio profético.
É possível dividir o livro em três partes a fim de captar
melhor sua mensagem. A primeira (1-3) e a segunda (4-11) apresentam duas comparações
para falar do relacionamento entre Deus e Israel. A terceira parte (12-14)
procura sintetizar o casamento e a rebeldia do filho, e conclui afirmando que
Deus garante a vida. O profeta retrata a relação entre o Deus, sempre fiel e
cheio de amor e seu povo que o abandona e prefere correr ao encontro dos ídolos.
Ele denuncia todo tipo de idolatria (=esquecer o projeto de Deus, isto é, “uma
sociedade igualitária”) que ele chama de prostituição.
Os ritos de fertilidade e prostituição sagrada etc., práticas
dos cananeus que infiltraram no culto dos hebreus, hoje têm suas versões nas
privatizações, terceirizações e o monopólio que a “eficiência” capitalista idolatra.
Tais ‘prostituições’, segundo Oséias, incluem também alianças políticas com
potências estrangeiras que provocam dependência, exploração econômica e opressão
(7,8-12; 8,9-10), os golpes de Estado que preservam interesses de uma pequena
minoria (7,3-7), a confiança no poder militar e nas riquezas (8,14; 12,9) e
todo tipo de injustiça (4,1-2; 6,8-9; 10,12-13).
Oséias, porém, não é só um acusador, mas anuncia o amor fiel
e misericordioso de Deus para com seu povo, se este se converter e voltar a
conhecê-lo. Para o profeta, o conhecimento de Deus é uma prática que
corresponda ao projeto de Deus, elaborado no deserto por ocasião do êxodo (cf.
Ex 19,1-40,38 a aliança do Sinai). Então, sim: Javé receberá novamente seu povo
como esposa, dispensando-lhe todo o carinho (2,4-25); ou tratando-o como filho
(Os 11).

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